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Pambazuka News 43: Moçambique há vinte anos em paz (?)
O reconhecido semanário eletrônico e plataforma para justiça social em África
Pambazuka News (Edição Português): ISSN 1757-6504
Pambazuka News é o reconhecido semanário eletrônico e plataforma para justiça social em África com comentários afiados e profundas análises sobre política e assuntos contemporâneos, desenvolvimento, direitos humanos, refugiados, questões de gênero e cultura em África.
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Destaques desta edição
ARTIGOS PRINCIPAIS
-Os 20 anos de paz em Moçambique, uma reflexão filosófica
-Não a uma nova guerra em Moçambique
SUMÁRIO DA EDIÇÃO INGLÊS
-Pambazuka News 612: Estacas no Haiti, República Centro Africana e a lógica do imperialismo
SUMÁRIO DA EDIÇÃO FRANCÊS
-Pambazuka News 265 : Guerras, crenças, ilusões e revoltas em África.
LIVROS & ARTE
-Brasil: Escritor angolano lança livro na Biblioteca Nacional
ZIMBÁBUE – ATUALIDADES
-Zimbábue: Estiagem agrava crise alimentar no Zimbabué
MULHERES & GÊNERO
-Brasil: Femicídio e Políticas Publicas. O que falta?
-Global: Milhões de empregadas domésticas exploradas e mal pagas
DIREITOS HUMANOS
-Angola: Unita em confronto com a polícia de Benguela
MOVIMENTOS SOCIAIS
-Brasil: Frei Betto receberá o Prêmio José Martí/Unesco de 2013
DESENVOLVIMENTO
-Brasil: o país enfrenta encruzilhada econômica em 2013
SAÚDE & HIV e AIDS/SIDA
-Moçambique: Ano letivo 2013 inicia hoje, crescem efectivos aumentam desafios
EDUCAÇÃO
-Moçambique: Ano letivo 2013 inicia hoje, crescem efectivos aumentam desafios
JUSTIÇA ALIMENTAR
-Moçambique:Fome ameaça alguns distritos de Inhambane
CONFLITOS E EMERGÊNCIAS
-Mali: França bombardeia redutos islamitas no Mali
OBSERVATÓRIO DE FORÇAS EMERGENTES EM ÁFRICA
-Brasil e Moçambique: uma relação a cada dia mais forte
CURSOS, SEMINÁRIOS & WORKSHOP
-Convocatória para o Congresso Internacional Afro Andino de Literatura
Editorial
Pambazuka News em língua portuguesa
Alyxandra Gomes Nunes
2013-01-14
http://pambazuka.org/pt/category/editorial/85955
É com grande prazer que a Fahamu anuncia o retorno da publicação Pambazuka News em língua portuguesa com frequência quinzenal.
Nosso foco principal incidirá nos países africanos de língua oficial portuguesa, nomeadamente: Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique. Teremos também contribuições vindas do Brasil, pois este país se configura no momento com um importante parceiro econômico para o continente. Eventualmente haverá contribuições vindas também de terras lusas.
Neste momento gostaríamos de reiterar o nosso compromisso com os diversos movimentos sociais em África e na diáspora e afirmar que funcionamos como uma plataforma para dar voz ao excluídos e a pensadores críticos que vem imaginando um outro mundo possível. Em especial estamos abertos a receber contribuições, textos, críticas de ativistas africanos e da diáspora.Não hesitem em nos enviar seus textos e de suas organizações para serem publicados em nossa plataforma que já conta com milhares de assinantes.
Agradecemos imensamente à organização Christian Aid pelo suporte financeiro e por acreditar no potencial deste projeto desde sua gestação. Ao longo desses anos confirmamos que a toda a rede Pambazuka News (em língua inglesa, francesa e portuguesa) tem de modo consubstancial contribuído para a agregação de pensadores de ponta de linha em África e na diáspora e para dar visibilidade àqueles que não aparecem na mídia mainstream mas que tem uma outra visão para contribuir com a reflexão do ser humano e do nosso ser no mundo, em especial em nossa luta contra as mazelas do neocapitalismo e suas formas de violência.
Que sejamos multiplicadores de uma visão de mundo possível hoje!
*Por favor envie comentários para editor-pt@pambazuka.org ou comente on-line em http://www.pambazuka.org
É com grande prazer que a Fahamu anuncia o retorno da publicação Pambazuka News em língua portuguesa com frequência quinzenal.
Nosso foco principal incidirá nos países africanos de língua oficial portuguesa, nomeadamente: Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique. Teremos também contribuições vindas do Brasil, pois este país se configura no momento com um importante parceiro econômico para o continente. Eventualmente haverá contribuições vindas também de terras lusas.
Neste momento gostaríamos de reiterar o nosso compromisso com os diversos movimentos sociais em África e na diáspora e afirmar que funcionamos como uma plataforma para dar voz ao excluídos e a pensadores críticos que vem imaginando um outro mundo possível. Em especial estamos abertos a receber contribuições, textos, críticas de ativistas africanos e da diáspora.Não hesitem em nos enviar seus textos e de suas organizações para serem publicados em nossa plataforma que já conta com milhares de assinantes.
Agradecemos imensamente à organização Christian Aid pelo suporte financeiro e por acreditar no potencial deste projeto desde sua gestação. Ao longo desses anos confirmamos que a toda a rede Pambazuka News (em língua inglesa, francesa e portuguesa) tem de modo consubstancial contribuído para a agregação de pensadores de ponta de linha em África e na diáspora e para dar visibilidade àqueles que não aparecem na mídia mainstream mas que tem uma outra visão para contribuir com a reflexão do ser humano e do nosso ser no mundo, em especial em nossa luta contra as mazelas do neocapitalismo e suas formas de violência.
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Artigos Principais
Os 20 anos de paz em Moçambique, uma reflexão filosófica
Brazão Mazula
2013-01-14
http://pambazuka.org/pt/category/features/85887
Recebi uma tarefa difícil. Pois, não parece que seja fácil reflectir o tema que me foi dado. A questão é: o que a Faculdade de Filosofia da UEM, autor do convite, espera de mim ao enfatizar “reflexão filosófica” dos 20 anos de Paz em Moçambique?
Não é igualmente fácil tratar desse tema nos dias que correm, com certa tensão política no ar, como que a suspender a paz duramente conquistada. Mas, ao mesmo tempo, apraz-me ver que a Faculdade de Filosofia elegeu a paz para tema das suas jornadas filosóficas, comemorando desta forma o Dia Mundial da Filosofia. Por isso, saúdo toda a Faculdade por essa lucidez, coragem e visão.
Penso ser importante um breve enquadramento histórico dos 20 anos de Paz, para depois falar sobre eles, identificar os desafios do futuro e o papel da filosofia nesses desafios.
Quando falamos dos 20 anos de paz, estamos a dizer o quê? Estamos a dizer: i) que o país esteve em guerra fratricida; -- 2) que em 1992 foi assinado o Acordo Geral de Paz (AGP), na cidade de Roma, Itália, pondo termo ao conflito sangrento de dezasseis anos e --3) que o conflito e a assinatura do AGP deram-se no século XX, mas celebramos os 20 anos no início do século XXI. Não sei se foi a tensão do século XX que se reflectiu em Moçambique, ou se foi Moçambique que agravou essa tensão política nos finais do século. Inclino-me mais pela primeira hipótese. Quero acreditar que a guerra fratricida tenha sido também reflexo do contexto mundial de guerra-fria que se vivia. Desde Descartes, mais propriamente com o seu Discurso do Método (1637), foi-se criando nas mentes de que a solução de problemas complexos passava pela operação de simplificação, à semelhança do que se faz na simplificação de uma fracção aritmética. Ao simplificar uns membros, mutila-se e elimina-se esses membros. Mais tarde, Hegel (1770-1831) desenvolveu a lógica dialéctica, segundo a qual a síntese resulta da luta ou oposição dos contrastes, ou seja, entre a tese e a antítese. Uma vez alcançada a síntese, pelo processo dialéctico, ela transforma-se em tese que, por sua vez e necessariamente, deve criar a sua antítese para sobreviver. A luta contra a oposição, ou seja, a eliminação da contradição é naturalmente percebida pela lógica dialéctica. Explica-se que assim funciona a razão da história. Nos seus Discursos à Nação Alemã (1807) Fichte (1762-1814) exacerbava a superioridade da língua alemã e, daí, passou para a superioridade do pensamento alemão. Na sua análise da história social Karl Marx (1818-1883) não evitará o cartesianismo e a forte influência hegeliana. Ao analisar as relações de produção que ocorriam na fábrica, a sua teoria da contradição e a da luta de classes antagonizaram o patrão (o proprietário da fábrica) e o operário (a mão-de-obra que dispõe da força de trabalho), aquele visto como explorador deste. Nesse antagonismo, Marx preconizava a superação do Capitalismo pelo Socialismo até chegar ao estado ideal do Comunismo. Daí, a luta de classes como motor da história. É interessante que, quem perceberá mais tarde, a não possibilidade da eliminação do Capitalismo, foi a China. Inventou uma fórmula dialogal entre os dois, expressa na síntese “uma nação, dois sistemas”. Encontramos também em Marx a cultura da eliminação como via de solucionar os problemas complexos e provocar o desenvolvimento da classe operária, que é a maioria trabalhadora. Essas teses, em substância, caíram com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Essa queda não derrubou necessariamente nas mentes a cultura de simplificação, da redução e da eliminação do Outro diferente, considerado inimigo.
O que significou a guerra-fria? Significou a legitimação de dois blocos, Leste e Ocidente, que se odiavam numa intolerância extrema, no ódio e na perspectiva de eliminação mútua. Os dezasseis anos de guerra significaram um período de guerra-fria em Moçambique. Significou a hostilização do Outro diferente no pensamento e na ideologia, como foi no caso moçambicano. Significou o desafio dos interesses económicos das potências hegemónicas, desafio centrado na apetência pelo petróleo que justificou, por exemplo, a invasão dos aliados ao Iraque. A guerra-fria foi a expressão limite da lógica disjuntiva e da supressão do outro diferente. Foi a lógica da II Guerra Mundial que acabou dividindo o povo alemão em dois países inimigos. Cada Alemanha considerava-se democrática. A Alemanha Federal considerava-se modelo de democracia, e a Alemanha do Leste chamava-se a si própria de República Democrática Alemã (RDA). Hoje, também cada uma das Coreias do Norte e do Sul considera-se democrática. A guerra-fria significou a eliminação do outro, de raça ou tribo diferentes, como foi, no seu extremo, a barbárie de Auschwitz e a horrenda destruição de Hiroshima. Contrito, Einstein havia exclamado, que se soubesse que a sua fórmula científica E = mc2, levaria à produção da bomba atómica, não a teria revelado.
Quando o Ocidente parecia “civilizado”, utilizando a expressão de Adorno, eis que desencadeou a guerra fratricida dos Balcãs, de 1991 a 1995, explorando ainda a diferença de religiões. Os países africanos enveredaram pelos mesmos esquemas de pensamento e de interesses. Os casos flagrantes foram o genocídio de Ruanda em 1994, a internacionalização da guerra da República Democrática do Congo e a guerra prolongada do Sudão. Não obstante a divisão em dois países independentes, Sudão do Norte e Sudão do Sul, a situação política continua turva. Durante dezasseis anos, cada beligerante moçambicano lutava para eliminar o outro diferente dele. A exclusão e a eliminação do diferente era o lema e o leitmotiv dos militares em combate. A lógica da eliminação era a justificativa. A opção pela guerra era adoptada como única medida para resolver os diferendos nacionais e estratégia acertada com a respectiva táctica. A diferença ideológica e partidária era vista como inimiga. Só que, como em qualquer guerra, o outro diferente que morre é o incauto, o inocente, o coitadinho, o pobre, ou seja, aquela população considerada escória da sociedade e, por conseguinte, não cidadã e nunca os arquitectos, os seus intelectuais orgânicos e mandantes da guerra. Nas guerras clássicas, quando morria o general, terminava a guerra. Lembramo-nos das guerras púnicas. Nas guerras modernas é diferente: lamenta-se a morte do general em combate, mas a sua morte não põe fim ao conflito. Esses exemplos retirados da história mostram que a lógica dialéctica não dialoga, mas, sim, afasta, separa, reduz, elimina e até mata.
Por quê este tipo de guerra? Os pensadores da Escola de Frankfurt, de Erick From a Marcuse, de Horkheimer a Adorno e Habermas entenderam recorrer à psicanálise de Freud para entender a mente do homem que pensa, planifica, declara e decide pela guerra Adorno não encontra uma justificação racional da Auschwitz senão a barbárie que infectou a civilização que produziu a anti-civilização. Mais recentemente, Edgar Morin entende que, nesses casos, tanto o político que pensa e autoriza a guerra como o intelectual e o homem da comunicação que utilizam as suas penas para justificá-la e o próprio carrasco que executa a acção, todos são igualmente cúmplices da barbárie.
A questão é: se é possível eliminar a apetência ou a tendência de solução dos conflitos por via da guerra? A resposta é: é possível com forte vontade política. Baseando-se ainda em Freud, Adorno não hesita em propor a educação como aquela capaz de “desbarbarizar” as mentes. O autor da “Dialéctica do Esclarecimento” refere-se à “educação infantil, sobretudo na primeira infância” e ao “esclarecimento geral em todas as idades de adolescentes, jovens e adultos. E por que Adorno insiste na educação e no esclarecimento? Este filósofo frankfurtiano acredita que eles são os meios mais capazes e eficazes de criar “um clima espiritual, cultural e social que não dê margem a uma repetição” da barbárie; são capazes de criar “um clima (…) em que os motivos que levaram ao horror se tornem conscientes, na medida do possível.
A celebração dos 20 anos de paz
SEM dúvida nenhuma, constitui para todos nós motivo de grande alegria a celebração dos 20 anos de paz. Por isso, estamos aqui. Admiramos a coragem daqueles que pensaram em terminar com a guerra fratricida. A eles a história agradece e agradecerá sempre. Admiramos aqueles que acreditaram que era possível àqueles, que outrora eram inimigos de sangue no campo da batalha, darem-se as mãos e fumarem juntos o cachimbo da paz. Prevaleceu a racionalidade do bom senso sobre a irracionalidade e os horrores da guerra fratricida. Quer dizer, estamos a celebrar a prevalência da razão sobre a des-razão política da barbárie da guerra entre filhos da mesma família moçambicana. Prestamos homenagem às mãos do senhor Joaquim Alberto Chissano, então Presidente da República de Moçambique e do senhor Afonso Dhlakama, presidente da Renamo, que pegaram nas suas canetas para assinar o cessar-fogo e souberam manter-se consequentes com o compromisso assumido naquele dia 4 de Outubro de 1992, de juntos trabalharem para uma paz duradoira, para uma democracia multipartidária saudável e o bem-estar social do povo moçambicano. Homenageamos os concidadãos das delegações das duas partes ex-beligerantes que durante cerca de dois anos, com paciência, patriotismo e fé, aceitaram, em princípio, desbarbarizar as suas mentes, caminhar juntos na construção da confiança e lançar as bases de convivência mútua. Homenageamos todos os mediadores nacionais e internacionais que ajudaram os ex-beligerantes a saberem aproximar-se e reconciliar-se como cidadãos da mesma pátria. O mundo quase que parou para assistir à assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP) e juntar-se à alegria dum povo sofrido. Em suma, homenageamos o povo moçambicano que, numa atitude de coragem e humanismo característico, soube reconciliar-se e reconciliar os seus filhos, ontem inimigos de sangue. Reconciliação, naquele sentido do bispo Sengulane, de que o fim da guerra foi uma vitória sem vencedores nem vencidos, porque foi uma vitória de todos. É motivo bastante para evocar o salmista e cantarmos com ele o seguinte salmo: “Quero louvar-te, Senhor, com todo o coração, e narrar todas as tuas maravilhas. Em ti exultarei de alegria e cantarei salmos ao teu nome, ó Altíssimo” (Sal. 9, 1-2). Assim, exultamos de alegria ao Senhor Deus por esse dom dos 20 anos de paz. Ora, os refugiados da guerra em países vizinhos regressaram. Os caminhos, ou seja, as estradas, sem perigo das minas, permitem as pessoas circularem e viajarem para onde querem. Os projectos individuais ou colectivos vão-se instalando. Quando se viaja pelo país, é emocionante ver multidões de crianças a dirigirem-se para a escola ou a regressarem com um andar bem compassado, tranquilas, a caminharem calmamente e sem medo. Os cidadãos de vinte anos de idade felizmente vivem em paz e não fazem ideia dos horrores da guerra. O desafio consiste em manter limpas as suas mentes.
Uma consciência moçambicana madura
Não obstante a euforia da paz, há várias interrogações no ar. Poderemos, a partir de Adorno, afirmar que as duas décadas de paz construíram uma consciência moçambicana madura, enraizada e cidadã, de que os motivos que haviam levado “ao horror” da guerra dos dezasseis anos não se justificam mais? Acredito que só foi possível chegar aos 20 anos porque ninguém quer mais guerra em Moçambique. Podemos afirmar que durante os 20 anos prevaleceu a racionalidade da convivência na diferença das opções ideológicas e partidárias, uma vez adoptado o “pluralismo de expressão e organização políticas democráticas”, no espírito do Protocolo II do Acordo Geral de Paz? Tomara, como dizem os brasileiros! Podemos afirmar que o país está definitivamente estável?
No seu tempo, Montaigne (1533-1592) reduzia a estabilidade social a três tipos de convivência: i) a convivência com a “leitura”, a partir do pensamento de Cícero segundo o qual “viver é pensar” (quibus vivere est cogitare) através dela se convive com os deuses e com a sabedoria; ii) a convivência com “os homens de bem e de talento”, de “juízo maduro e constante e iii) a terceira é a convivência com as “mulheres belas e honradas”, baseando-se na sua experiência de “convívio delicioso” com elas, naquilo que igualmente Cícero pode dizer: Num nos quoque óculos eruditos habemus(«Porquanto nós também temos olhos de conhecedor na matéria»).[6] No meu entender, estes três tipos de convivência continuam de certa maneira válidos. iv) Mas os desafios do país ocorridos nesses últimos 20 anos mandam-me acrescentar o quarto tipo: o de convivência social com o Outro diferente política e ideologicamente. Este tipo de convivência inclui a tolerância, como condição de paz e postula o uso da razão e vontade livre dos homens, na linha de John Locke na sua Carta Sobre a Tolerância.[7] A convivência com diferente está implícita nas teses neoliberais da democracia e do respeito à diferença. O Acordo Geral de Paz de Roma incorporou em si essas teses. É assim que, no Protocolo I, os assinantes do AGP assumiram “o método de diálogo” e “de colaboração entre si” como “indispensável para se alcançar uma paz duradoira no país.” Trata-se de uma convivência que ultrapassa o método cartesiano de simplificação, de separação, de divisão e exclusão; ultrapassa a contradição contida na dialéctica hegeliana. Trata-se de uma convivência na qual a contraditoriedade faz parte do ser e de estar na sociedade humana e da sua dinâmica social. Pois, a democracia inclui em si a contraditoriedade, a qualidade de o Outro ser diferente, a possibilidade de convivência social e requer a lógica dialógica.
Insisto na tese de que se não deve avaliar os 20 anos de Paz apenas pela multiplicidade de partidos políticos; pelo número de infra-estruturas erguidas nesse período (que são importantes); nem nos comprazermos apenas com os indicadores económicos. Sócrates (469-399 a. C.) advertia a Cálicles que louvava os homens que haviam engrandecido Atenas, por terem enchido “a cidade de portos, arsenais, muralhas, tribunais e outras ninharias”, não se importando “com a sabedoria” nem “com a justiça.”[8] Sócrates não estava a desprezar as construções; queria, sim, salientar que tudo isso valia pouco se, entre os homens da cidade e nas instituições atenienses, não imperassem a sabedoria e a justiça. Repare-se que para Sócrates o carácter divino dos deuses ou a sua santidade (óσιος) residia necessariamente no facto de ser justo (δίκαιος). Séculos mais tarde, Fichte (1762-1814) irá retomar a tese de boa governação assente na justiça, quando clama que o que o povo quer do seu imperador não é a sua bondade, nem a felicidade, mas a justiça. Diz textualmente: “Não, príncipe, tu não és o nosso Deus. De Deus esperamos a felicidade; de ti, a protecção dos nossos direitos. Connosco não deves ser bondoso; deves ser justo.
*Brazão Mazula – Texto apresentado durante as Jornadas Científicas de Filosofia na Faculdade de Filosofia da Universidade Eduardo Mondlane, em janeiro de 2013. Dia Mundial da Filosofia.
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Não a uma nova guerra em Moçambique
Alexandre Braga
2013-01-14
http://pambazuka.org/pt/category/features/85872
A República de Moçambique, na África Oriental, tem uma taxa de crescimento da população de 2,8% ao ano, o que chega aos 24 milhões de habitantes em que 27% deles estão desempregados. Recentemente, a União Europeia anunciou para 2014 o fim das restrições à comercialização moçambicana com os europeus. Isso tem um impacto na economia para ajudar a alavancar as exportações de tabaco, peixe, alguns minérios e o próprio turismo do país africano, cujos valores monetários ultrapassam a casa dos 2 bilhões de dólares em negócios até 2023.
Apesar da euforia, fontes do Ministério das Finanças dão como certa a redução do auxílio financeiro vindo de Bélgica, Holanda, Alemanha, Suíça e Espanha, por causa da turbulência porque passsam esses e demais nações na Europa. Os cinco países formam o G-19 grupo de 19 governos que sempre acolheram as demandas de Moçambique, seja no campo das finanças ou apoio político. Caso essa proposta se confirme, as reduções da ajuda internacional vão comprometer o orçamento da Repúblca de Moçambique, atingindo em cadeia obras, ações governamentais e rebaixar a capacidade do Estado em intervir nos diversos conflitos de interesse dos grupos locais.
Como exemplo dessa repercussão nos assuntos internos de Maputo, a crise do euro vai criar uma expectativa negativa nas conduções políticas para 2013, já que a previsão de contratar 13 mil novos servidores públicos não será realizada. Todavia, a tragédia poderá ser menor se o Banco Mundial manter a promessa de aumentar os investimentos em 210 milhões de dólares para os mega-projetos.
Portanto, se no campo econômico há boas e más projeções, é no campo político que a situação de Moçambique causa a maior preocupação dos últimos 20 anos, uma vez que o sucesso de sua insipiente pacificação traz, de novo, a necessidade de se manter em alerta o cenário civil e militar na ex-colônia portuguesa. Depois de 16 anos de intensa guerra civil, entre 1976 e 1992, Moçambique vive um quadro de negociações incertas quanto à mediação das rusgas do conflito armado que assolou a geografia, trouxe mazelas sociais de toda sorte e ainda requer cuidados para que a população obtenha acesso aos serviços mínimos de saúde, educação, alimentação e saneamento básico, nessa que é uma potência petrolífera e mineral que ainda está adormecida. Já que a vitória conduzida pelo hábil Samora Machel com o beneplácito da ex-URSS e de Cuba, corre sérios riscos de ruptura institucional com o anúncio de antigos opositores do regime que apostam numa eventual volta ao conflito armado.
A Renamo ( Resistência Nacional Moçambicana), principal porta-voz dos descontentes e opositora de maior envergura eleitoral, reclama dos poucos espaços que possui na conturbada engrenagem de poder ente os moçambicanos. Já a Frelimo ( Frente de Libertação de Moçambique), fiel à sua inspiração marxista e no poder desde o fim da guerra civil, relata diversos episódios onde militantes da Renamo desfilam em frente aos órgãos públicos com portento amparato militar. No entanto, a Renamo possui quase nenhuma presença nas Forças Armadas e tem, ainda, pequena força nas organizações da sociedade civil. Mas o estopim para o aumento das discordâncias foi a recente votação de leis eleitorais, onde a Frelimo, que tem 191 cadeiras no Parlamento, conseguiu a aprovação da maioria das propostas contra os apenas 51 votos ( cadeiras) da Renamo. Pórem, o que os opositores reunidos em Gorongoza, na região central, têm em perspectiva são as eleições gerais e para Presidente em 2014. E caso os rumos econômicos tenham mais projeções boas do que más, a Frelimo entrará no processo para escolha do novo mandatário nacional com franca vantagem, mesmo tendo no páreo a empresária Filomena Mutoropa, toda-poderosa e secretária-geral do Pahumo ( Partido Humanitário de Moçambique ), primeira mulher a exercer um cargo dessa magnitude no país.
Isto é, a possibilidade de uma nova guerra na África, assim como vem ocorrendo no Sudão, Mali, Tunísia e no Egito, não interessa a nenhum dos lados envolvidos nesses conflitos, seja por meio de agitações de massa, troca de farpas na imprensa ou no conflito armado propriamente dito. Isto porque se ainda faltam fatores que levem ao amadurecimento da democracia nessas nações no campo político, há enormes possibilidades no campo econômico que vão consolidar a região africana no globo como forte candidata para enfrentar o jogo das potências capitalistas e se contrapor ao imperialismo usando tudo o que a África tem de melhor: riqueza, gente e espaço territorial. Haja vista que ainda hoje são os interesses estrangeiros que isuflaram tais guerras e é, justamente pelo uso dessa capacidade, que o renascimento africano poderá trazer alentos às nações do continente, a exemplo de movimentos como a Primavera Árabe.
*Alexandre Braga é africanista, Diretor Nacional de Comunicação da UNEGRO e especialista em Gestão de Política Pública pela UFOP-Universidade Federal de Ouro Preto. Contato em: bragafilosofia@yahoo.com.br
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Sumário da Edição Inglês
Pambazuka News 612: Estacas no Haiti, República Centro Africana e a lógica do imperialismo
2013-01-14
http://www.pambazuka.org/en/issue/current/
Haiti: o terremoto, a cólera e o furacão Sandy. Promessas vazias do ocidente e os desígnios da pilhagem do capitalismo.
Ama Biney
Desde o terremoto escala 7.0 que aniquilou Porto Príncipe e matou milhares de haitianos em Janeiro de 2010, Ama Biney revisa os desenvolvimentos sócio econômicos no país e argumenta o partido radical Fanmi Lavalas ainda ressoa com a maioria dos haitianos.
Notas do Zimbabué
Zimbábue: Estiagem agrava crise alimentar no Zimbabué
2013-01-14
http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/2013/01/estiagem-agrava-crise-alimentar-no-zimbabue/
Livros & Arte
Brasil: Pra não esquecer o passado – Breve História Colonial em África,
Pinturas de Tchalê Figueira
Ricardo Riso
2013-01-14
http://pambazuka.org/pt/category/books/85881
A sangrenta experiência colonial em África consolidada durante a Conferência de Berlim (1884-1885) é retratada de forma corrosiva nas pinturas da série “Breve História Colonial em África”, do artista plástico Tchalê Figueira, que objetiva não deixar que esse triste passado seja revisto de forma branda ou rasurado da História. Com isso, o artista procura desvelar terríveis personagens e demonstra a agonia dos povos africanos em um expressionismo voraz e de forte impacto. A análise aqui presente pretende mostrar como Tchalê Figueira realiza plasticamente em dez pinturas (anexadas ao final do texto) suas denúncias ao sistemático genocídio de negros africanos durante o colonialismo. O suporte teórico escora-se nos historiadores Joseph Ki-Zerbo, Carlos Moore, Albert Memmi, entre outros.
A sangrenta experiência colonial em África consolidada durante a Conferência de Berlim (1884-1885) é retratada de forma corrosiva nas pinturas da série “Breve História Colonial em África”, do artista plástico Tchalê Figueira, que objetiva não deixar que esse triste passado seja revisto de forma branda ou rasurado da História. Com isso, o artista procura desvelar terríveis personagens e demonstra a agonia dos povos africanos em um expressionismo voraz e de forte impacto. A análise aqui presente pretende mostrar como Tchalê Figueira realiza plasticamente em dez pinturas (anexadas ao final do texto) suas denúncias ao sistemático genocídio de negros africanos durante o colonialismo. O suporte teórico escora-se nos historiadores Joseph Ki-Zerbo, Carlos Moore, Albert Memmi, entre outros.
Quando o sonho encontra a palavra
Guilherme Magalhães
2013-01-14
http://rascunho.gazetadopovo.com.br/quando-o-sonho-encontra-a-palavra/
“Se temos voz é para vazar sentimentos.” A frase, encontrada em certo momento do romance O último vôo do flamingo, reflete como um espelho seu autor, o moçambicano Mia Couto. Nascido Antônio Emílio Leite Couto, em 1955, rebatizou-se Mia por se considerar mais próximo dos gatos que das gentes, gentes que surgem sempre prontas a vazar sentimentos, medos e sonhos em seus contos e romances, dotados de uma linguagem singular, uma prosa carregada de poesia. Num país devastado pela guerra civil que se estendeu de 1976 a 1992, o escritor capturou as brumas do sonho e usou deste elemento para dar corpo à sua literatura. “Metade da minha vida foi vivida em guerra, e Moçambique é um dos países mais pobres do mundo, então tudo isso nos instiga a fabricar um mundo que não seja colado na realidade”, afirma Couto nesta entrevista concedida durante sua passagem por Curitiba, em novembro passado, quando lançou seu mais novo romance, A confissão da leoa. Fruto de uma experiência real vivida em 2008 por Couto, que é biólogo de profissão, a história segue os passos de um caçador enviado a um pequeno vilarejo do norte de Moçambique com o objetivo de matar os leões que estão devorando pessoas e aterrorizando o lugar. Um escritor o acompanha, a fim de escrever uma reportagem sobre a caçada.
O escritor da vida real, Mia Couto, serviu de matéria-prima para o da ficção, Gustavo Rabelo. “Esse caçador existiu e esse escritor sou um bocadinho eu. Eu tinha uma dificuldade muito grande de me inserir naquilo, porque não sou um homem de caça, nunca fui à caça”, conta o moçambicano, que neste livro abandona a preocupação com os neologismos que marcam sua obra, o que não significa sua ausência absoluta. Tentativa semelhante foi empreendida em seu romance anterior, Antes de nascer o mundo: “Quero sair dessa zona de conforto, experimentar outras coisas”. Nesta conversa, o autor de Terra sonâmbula, eleito um dos dez melhores romances africanos do século 20, fala sobre o processo de escrita de sua obra mais recente, sua experiência na guerra civil, sua predileção pelo sonho, Jorge Amado e um personagem recorrente em sua literatura: o silêncio.
• As duras condições de sobrevivência das mulheres moçambicanas é um ponto marcante em A confissão da leoa. O senhor vê a crítica social como um dos papéis da literatura?
Sim, desde que ela seja feita de forma literária. Quer dizer, é preciso que o escritor não pense que seja um funcionário de uma causa, é preciso que ele perceba que está trabalhando numa outra dimensão. Mas ele não pode acreditar que está acima disso, acima dos conflitos, daquilo que são as posturas éticas. Isso tem que estar lá, marcado.
• Em A confissão da leoa, o senhor exercita uma prosa mais objetiva, talvez menos poética do que a de romances anteriores. Seria em decorrência da experiência que antecedeu sua escrita?
Acho que não. Não sei se o tom poético não está tão presente, mas o que não está é essa preocupação de fazer uma reinvenção de linguagem, criar neologismos. Já a partir do romance anterior eu quis fazer uma ruptura com isso, quer dizer, eu não quero deitar-me numa cama que já sei que adormeço bem. Portanto, quero sair dessa zona de conforto, experimentar outras coisas.
• O sonho é um elemento sempre presente em sua literatura. O senhor utiliza de seus próprios sonhos quando escreve? Qual a ponte que o liga à literatura?
Na minha casa, quando pela manhã estamos tomando café, tenho uma inveja enorme, porque todos contam os sonhos e eu não me lembro dos meus. Sinto-me diminuído. Não é o sonho no sentido literal, mas é aquela maneira como a gente fabrica um outro mundo como se fosse um estado sonâmbulo, quase de delírio. Quem vive numa realidade tão dura como é a de Moçambique, que teve uma história, um percurso tão difícil — metade da minha vida foi vivida em guerra, e é um dos países mais pobres do mundo —, tudo isso nos instiga a fabricar um mundo que não seja colado na realidade.
• Em Terra sonâmbula, a personagem Farida diz sobre a guerra civil: “Pode acabar no país, Kindzu. Mas para nós, dentro de nós, uma guerra nunca mais vai terminar”. Esse era um sentimento seu também, enquanto escrevia o livro nos anos finais da guerra?
Era. Era quase uma fé triste, um certo pessimismo de que aquela guerra nunca iria terminar, porque demorou tanto tempo e a experiência que eu tinha dos outros países africanos era que elas encontraram razão para se reproduzirem internamente. Portanto, foi uma surpresa enorme. Se me perguntam se acredito em milagre, eu agora acredito em um. De repente num dia declarou-se paz, decretou-se paz e nunca mais houve guerra, nunca mais houve um tiro sequer ligado a ela. Por outro lado, essa frase era como um vaticínio, quer dizer, a guerra nunca mais sairá de dentro de mim. Procuro esquecê-la, procuro que ela fique arrumada lá num canto, mas não é possível.
• Certa vez, numa entrevista, o senhor disse que o tema da busca de identidades nunca o abandonou. O senhor escreve para também procurar sua identidade? Ou não para buscar, mas afirmá-la?
O que se passa é o seguinte: essa busca da identidade é um grande assunto para todos nós. Não é uma coisa literária, não é um assunto filosófico. Temos sempre de explicar quem somos, e é uma miragem, é sempre uma coisa equivocada. Nunca somos uma coisa, não temos uma identidade, temos várias, e elas vão mudando com o tempo, vão mudando com a idade, vão mudando com a relação que a gente tem. Eu vejo que isso foi uma coisa que no início surgiu dramática em mim próprio. Tenho que saber quem sou, e eu era um cruzamento de tanta coisa, era um ser de fronteira, sou um filho de portugueses que nasceu em África e se converteu num africano. Vivo entre o mundo católico, o mundo dessas outras religiões que não têm nome, vivo entre o ocidente e o oriente, entre esse mundo de crenças e o cientista que também sou. Então, de repente, disse para mim: “O que é que eu sou?”. Parecia que eu tinha que saber, e é um drama não saber. Às vezes, o que disse a mim próprio e gostaria de dizer aos meus filhos e amigos é que não sofram, pois, ao contrário, quando souberem, aí sim vocês terão razão para sofrer. Porque essa área do não saber, essa ignorância, é extremamente fértil, portanto convivamos bem com isso.
“A área do não saber, a ignorância, é extremamente fértil, portanto convivamos bem com isso.”
• Não raro o silêncio aparece em sua obra quase como um personagem de vida própria, carregado de intensidade. O silêncio pode dizer mais do que as palavras?
Tem uma dimensão pessoal minha. Eu era uma criança calada, tímida, não falava, e descobria nesse não falar um valor, porque queriam saber o que eu queria dizer e nunca dizia. O livro Antes de nascer o mundo em França se chamou O afinador de silêncios, porque esse menino constrói silêncios como quem constrói uma fala. O silêncio permite que haja comunicação, não é uma ausência, não é uma pausa absoluta. Depois, tem essa outra dimensão que é social, do meu lugar. Os africanos olham o silêncio como uma coisa que não é incomodativa. Às vezes, o que eu vejo em outros lugares, quando as pessoas estão num grupo e se cria um silêncio, é que aquilo tem que se resolver, é um vazio. Ali não, o silêncio está cheio de vozes, não existe nunca. O silêncio não é aquilo que parece, não é uma ausência.
• O senhor estreou na literatura com um livro de poesia, nos anos 1980, e então partiu para o conto e o romance. Seu último livro de contos (O fio das missangas) data de 2003, e somente em 2011 o senhor retornou à poesia, com Tradutor das chuvas (inédito no Brasil). Já A confissão da leoa é seu 12º romance. O senhor foi fisgado por este gênero?
As coisas surgem de uma certa maneira. Sempre com um pequeno núcleo, que ou é um personagem ou é uma raiz de um verso, digamos assim. E eu no momento sei lá o que isto vai ser, um poema, uma história. Quando surge como história, não quero que seja coisa nenhuma, quero que ela vá acontecendo. Também logo quando começo a trabalhar, já não é só um momento de inspiração, sei que vai ser um conto, sei que vai ser um conto longo. Que seja um romance ou não, não me preocupo naquele momento. Mas não acho que tenha sido capturado por nenhum gênero.
• O senhor concorda com o caçador Arcanjo, que em A confissão da leoa compara o escritor Gustavo a uma ave de rapina em busca dos relatos da população sobre a guerra e os ataques dos leões? O senhor se sentiu dessa forma quando acompanhou o caso em 2008?
Não, não me senti. Houve ali uma relação verdadeira, esse caçador existiu e esse escritor sou um bocadinho eu. Eu tinha uma dificuldade muito grande de me inserir naquilo, porque não sou um homem de caça, nunca fui à caça. E de fato esse caçador, que é meu amigo, é verdade, há coisas ali que são verdade, que eu, digamos, fui buscar. E uma dessas coisas é que ele também escreveu um livro. Ele pinta, é um artista, não é um caçador típico, vamos dizer assim. E ele apontou-me o dedo e disse: “Essa história quem vai contar sou eu, não és tu. Eu é que estou aqui me sacrificando, eu é que estou produzindo a história, e tu estás de uma maneira quase parasitária recolhendo outra história, inventando”. Ele colocou logo assim e acabou publicando o livro agora, com o relato, tem foto e tudo desta caçada. Mas eu logo o tranquilizei, disse: “Essa história será sempre tua”. Ele não ficcionalizou nada, fez um relato.
• O universo literário de Jorge Amado pode ser comparado ao seu, com a forte presença da religião e dos tipos sociais. Amado foi, dos escritores brasileiros, o que mais penetrou nos países africanos lusófonos. A que o senhor credita essa aceitação tão forte?
Foi uma combinação de fatores. Pela qualidade literária que ele criou na sua obra, porque é baiano — ali a presença da África é tão visível e nós reconhecíamos essa presença. Aqueles personagens podiam ser nossos, aquela gente que está ali na rua da Bahia podia passar em frente à minha casa. Isso vinha junto com um fascínio pelo Brasil, fascínio um bocado equivocado, que o Brasil era o país onde negros e mulatos tinham conseguido ser visíveis e ser tratados de maneira justa. Porque se chegava àquela idéia do samba, do futebol, e nem sequer se percebia que essa presença do negro no futebol brasileiro foi fruto de uma briga, de uma luta. Mas aquilo parecia uma coisa natural, aquela coisa da Pasárgada, olha lá um espaço de redenção em que gostaríamos de viver. Então havia um Brasil muito encantado que chegou a Moçambique, e o Jorge Amado surgiu no meio disso. E também porque ele assumiu uma postura política, seus livros eram proibidos — mas eram proibidos em Portugal, não em Moçambique, pois havia aquela idéia do regime de Salazar de que em Moçambique ninguém sabia ler, portanto deixa lá o Jorge Amado ser vendido. Mas tudo isso criava uma aproximação, um desejo não só de ler, mas de ser como ele.
• Seu pai era poeta. Como foi crescer numa casa habitada pela poesia e pelos livros, numa família radicalmente oposta a grande parte da população moçambicana?
Tu disses bem, rodeado pela poesia e não só pelos livros, porque meu pai não escrevia poesia, era poeta. Então ele passava para nós sem que nunca anunciasse. Meu pai nunca me mandou ler um livro, aquilo passava pela maneira como ele olhava o mundo. Essa escola ficou dentro de mim, e depois também havia uma coisa: quem nos visitava à noite, com quem saíamos no fim de semana, eram sempre poetas. Eu pensava que todo mundo quando ficava adulto virava automaticamente poeta. Não podia falar com meus amigos sobre poesia, porque achavam aquele assunto meio, sei lá, tinham uma grande desconfiança — isso que eu era um homem macho falando poesia. Então, eu escondia aquela coisa, era um ato secreto meu, o que ainda me instigou mais.
Sumário da Edição Francês
Pambazuka News 265 : Guerras, crenças, ilusões e revoltas em África.
2013-01-14
http://www.pambazuka.org/fr/issue/current/
CASAMANCE : Trinta anos de guerra e uma esperança de paz.
Jean-Claude Marut
2012-12-18
Na longa evolução do conflito da Casamança, entre as dinâmicas de paz, violência e confusão, um passo importante acaba de ser dado em direção a uma perspectiva de resolução. O presidente Macky Sall e o principal chefe militar da rebelião concordaram em atos inéditos que conjugam uma vontade positiva. Resta saber se as respostas audaciosas que se exige da paz na Casamança vão sobreviver.
Mulheres & Gênero
África do Sul: Quando os estupros vão chocar a África do Sul?
2013-01-14
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/01/130110_africadosul_estupros_pai.shtml
Global: Milhões de empregadas domésticas exploradas e mal pagas
2013-01-14
http://www.voaportugues.com/content/article/1581524.html
Direitos Humanos
Angola: Unita em confronto com a polícia de Benguela
2013-01-14
http://www.voaportugues.com/content/article/1583439.html?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook
Movimentos Sociais
Brasil: Frei Betto receberá o Prêmio José Martí/Unesco de 2013
2013-01-14
http://envolverde.com.br/noticias/frei-betto-recebera-o-premio-jose-martiunesco-de-2013/
Desenvolvimento
Brasil: o país enfrenta encruzilhada econômica em 2013
2013-01-14
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/12/121227_economia_2013_ru.shtml
Em 2013, o Brasil deve enfrentar uma encruzilhada econômica: ou o país volta a crescer de forma acelerada - no patamar dos 3% ou 4% -, ou até seu status de 'Bric' começará a ser questionado. Essa é a visão de analistas como Jim O'Neill, do banco Goldman Sachs, que em 2001 criou o acrônimo Bric para designar as nações emergentes que em 2050 igualariam seu peso econômico ao de países do mundo rico - além do Brasil, Rússia, Índia e China.
Moçambique: Em 2013: Vale Moçambique projecta exportar 4,5 milhões de Ton de carvão
2013-01-14
http://tinyurl.com/af556hp
A Vale espera, este ano, produzir e exportar para os principais mercados mundiais cerca de 4.5 milhões de toneladas de carvão, extraído nas minas a céu aberto na Bacia Carbonífera de Moatize, no âmbito do Programa Carvão de Moatize.
Moçambique: Saldo das reservas internacionais líquidas sobe para mais de US$ 2.6 mil milhões
2013-01-14
http://tinyurl.com/cxwgnwx
Saúde & HIV e AIDS/SIDA
Moçambique: Sociedade civil e classe política solidários com os classe médica
2013-01-14
http://www.maputodigital.com/noticias.php?noticia=1000780
Educação
Moçambique: Ano letivo 2013 inicia hoje, crescem efectivos aumentam desafios
2013-01-14
http://www.canalmoz.com/
Segundo dados oficiais, pouco mais de 4,7 milhões de crianças vão frequentar, este ano, escolas públicas do Ensino Primário do Primeiro Grau (da 1ª à 5ª classe), representando um acréscimo em mais de 225 mil alunos que no ano passado frequentaram aquele nível em 2012. No total o sistema vai funcionar com 11.450 escolas do EP1, mais 287 unidades comparativamente a 2012, estimando-se que cada unidade de ensino opere com uma média de 412 crianças. Para o Ensino Primário do Segundo Grau (6ª e 7ª classes) as projecções indicam que este ano estão inscritos 826.820 alunos contra os 783.691 que frequentaram aquele nível em 2012.
Justiça Alimentar
Conflitos e emergências
Egito: Pomba que transportava um microfilme é investigada no Egito
2013-01-14
http://tinyurl.com/d5duxz4
Global: Conflitos em alguns países africanos é um «retrocesso» no processo de democratização
2013-01-14
http://tinyurl.com/9wc3ubz
Global: Norte da África guia democratização árabe
2013-01-14
http://oglobo.globo.com/mundo/norte-da-africa-guia-democratizacao-arabe-7285042
Primo do rei e terceiro na linha de sucessão no Marrocos, Moulay Hicham ben Abdallah Alaoui já foi chamado de ‘príncipe vermelho’ por seu liberalismo. Hoje, é professor da Universidade de Stanford, na Califórnia.
Apesar dos problemas, os norte-africanos têm tomado a dianteira no processo de democratização do mundo árabe. Que lições pode-se aprender de Tunísia, Líbia e Egito?
Regimes dominantes estão aprendendo com esses países em transição a adaptarem-se a uma nova realidade, a da mobilização popular. Eles aprenderam que não se podem dar o luxo de ignorar, como no passado, os sinais de alerta da frustração em massa. Isto também significa que a fase inicial de difusão regional passou. Considerando que Egito, Tunísia e a oposição líbia inspiraram-se uns nos outros, cada nova arena nacional de luta agora está definida com trajetória própria. As forças de oposição em toda a região também estão aprendendo novos tipos de comportamento estratégico, novos métodos de ativismo e também percebendo a necessidade de formar coalizões amplas para superar resistências conservadoras.
Primo do rei e terceiro na linha de sucessão no Marrocos, Moulay Hicham ben Abdallah Alaoui já foi chamado de ‘príncipe vermelho’ por seu liberalismo. Hoje, é professor da Universidade de Stanford, na Califórnia.
Apesar dos problemas, os norte-africanos têm tomado a dianteira no processo de democratização do mundo árabe. Que lições pode-se aprender de Tunísia, Líbia e Egito?
Regimes dominantes estão aprendendo com esses países em transição a adaptarem-se a uma nova realidade, a da mobilização popular. Eles aprenderam que não se podem dar o luxo de ignorar, como no passado, os sinais de alerta da frustração em massa. Isto também significa que a fase inicial de difusão regional passou. Considerando que Egito, Tunísia e a oposição líbia inspiraram-se uns nos outros, cada nova arena nacional de luta agora está definida com trajetória própria. As forças de oposição em toda a região também estão aprendendo novos tipos de comportamento estratégico, novos métodos de ativismo e também percebendo a necessidade de formar coalizões amplas para superar resistências conservadoras.
Mali: Conselho de Segurança da ONU discute situação no Mali
2013-01-14
http://www.africa21digital.com/politica/ver/20030340-conselho-de-seguranca-da-onu-discute-situacao-no-mali
Nigéria: Comandante da Boko Haram preso na Nigéria
2013-01-14
http://www.africa21digital.com/politica/ver/20030337-comandante-da-boko-haram-preso-na-nigeria
Cursos, seminários & workshop
Convocatória para o Congresso Internacional Afro Andino de Literatura
2013-01-14
http://www.gellac-unfv.blogspot.com.br/2012/12/convocatoria-congreso-internacional.html
El Grupo de Estudios Literarios Latinoamericanos Antonio Cândido (GELLAC) de la Facultad de Humanidades de la Universidad Nacional Federico Villarreal, el Instituto de Investigaciones Humanísticas (I.I.H.) de la Facultad de Letras y Ciencias Humanas de la Universidad Mayor de San Marcos y la Red Malunga de Investigación Afrodiaspórica de la Facultad de Artes y Humanidades de la Universidad de los Andes (Colombia) convocan a la comunidad académica a participar en el Congreso Internacional sobre Literaturas Afroandinas. Homenaje a Leoncio Bueno. Este evento tendrá lugar en Lima, Perú, los días 26, 27 y 28 de junio de 2013.
¿Qué significa ser “negro” en un continente que está definido por la presencia andina y por una conciencia identitaria nacional mestiza (el cruce entre lo blanco y lo indígena)? ¿Cuál es la naturaleza simbólica que adopta esta relación entre lo afrodescendiente y lo andino? ¿Cómo dicha relación ha sido representada por el discurso de la literatura? Son algunas de las interrogantes que surgen de una reflexión necesaria el día de hoy: pensar los modos en los que lo afrodescendiente y lo andino han entrado en contacto y, en algunos casos, incluso han llegado a constituir un producto cultural nuevo: lo afroandino.
Se ha reflexionado poco en relación a los mecanismos de representación, y a las implicaciones que estas representaciones tienen sobre lo afrodescendiente en su relación con lo andino en los imaginarios sociales y nacionales del continente americano. Por esta razón, los estudios literarios peruanos y latinoamericanos necesitan acercarse críticamente a estas manifestaciones discursivas debido a que su estudio puede contribuir a una mayor comprensión de la complejidad de nuestras sociedades. Ante esta necesidad crítica y teórica, el Congreso Internacional sobre Literaturas Afroandinas. Homenaje a Leoncio Bueno invita a reflexionar, dialogar y debatir sobre lo afroandino desde la perspectiva de la literatura y los estudios culturales.
En este contexto, uno de los ejes del congreso será la vida y obra de uno los autores más importantes de la literatura afroperuana: Leoncio Bueno.
TEMARIO
Literaturas afroandinas
Narrativa, poesía y teatro afroandinos
Tradiciones orales y literaturas orales afroandinas
Investigaciones sobre la vida y obra de Leoncio Bueno
Visibilidad e invisibilidad de la cultura afroandina en el Perú y América del Sur
Etnicidad / Raza e identidad en la literatura afroandina peruana y sudamericana
Escrituras de lo afroandino / sobre lo afroandino en el Perú y el resto de América del Sur (pasado y presente)
Invenciones del yo afroandino: crónicas, diarios, memorias, testimonios e historias de vida
Literatura afroandina y otras expresiones artísticas: música, danza, cine y fotografía
PRESENTACIÓN DE LOS TRABAJOS
RESÚMENES
Las propuestas de mesas y ponencias deberán ser enviadas vía correo electrónico hasta el 20 de abril de 2013, a los siguientes correos: congresoliteraturasafroandinas@gmail.com y gellac@gmail.com
Las propuestas incluirán el título, el resumen (máximo 250 palabras, formato Word), la afiliación institucional, grado académico, y una breve hoja de vida del autor.
PONENCIAS
La extensión de las ponencias completas no deberá ser mayor de 9 cuartillas a doble espacio, lo que equivale a 2500 palabras y 20 minutos de lectura. Asimismo, se deberá adjuntar la reseña bio-bibliográfica del ponente.
PUBLICACIÓN
Los ponentes interesados en que sus trabajos formen parte de una publicación sobre el tema, deberán enviar hasta el 15 de octubre de 2013, a gellac@gmail.com, dos documentos adjuntos en formato Word: uno, sin nombre personal, con el título y el texto del artículo (6,500 palabras aprox.); otro, con el título del artículo y los datos personales. Las propuestas serán sometidas a la evaluación de un consejo editorial y a la lectura de pares académicos.
Valor de la inscripción y certificación
Ponentes
Ponentes nacionales, cincuenta soles
Ponentes internacionales, cuarenta dólares
COMITÉ ACADÉMICO:
Dr. Carlos García-Bedoya Maguiña (UNMSM)
Dr. Gonzalo Espino Relucé (UNMSM)
Dra. María Cândida Ferreira de Almeida (Universidad de los Andes-Colombia-RED MALUNGA)
Dra. Celia Cussen (Universidad de Chile)
PhD. Michael Handelsman (University of Tennessee, Knoxville)
COMITÉ EJECUTIVO:
Mg. Milagros Carazas (UNMSM)
Mg. Dorian Espezúa (UNMSM-UNFV)
Mg. Richard Leonardo (UNMSM-UNFV-GELLAC)
Mg. Nécker Salazar Mejía (UNFV)
Mg. Marcel Velázquez Castro (UNMSM)
Lic. Judith Paredes Morales (UNFV-GELLAC)
Bach. Regina Martínez (UNFV-GELLAC)
Bach. Fernando Honorio Hernández (UNFV-GELLAC)
Fahamu – Redes para Justiça Social
www.fahamu.org
© A menos que indicado
