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Food Rebellions! takes a deep look at the world food crisis and its impact on the global South and under-served communities in the industrial North. While most governments and multilateral organisations offer short-term solutions based on proximate causes, authors Eric Holt-Giménez and Raj Patel unpack the planet's environmentally and economically vulnerable food systems to reveal the root causes of the crisis.

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Pambazuka News 44: Angola e a querela com a IURD

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Destaques desta edição

ARTIGOS PRINCIPAIS
-A IURD não é exactamente 
uma igreja, é uma empresa
-Diáspora-Fobia Progressiva na Guiné-Bissau
-Meu querido Patrice - Carta a Patrice Lumumba
COMENTÁRIOS E ANÁLISES
-Declaração da SOS Habitat em Angola sobre a situação de injustiça habitacional
-Aparato de Guerra Usado nas Demolições em Cacuaco
SUMÁRIO DA EDIÇÃO INGLÊS
-Pambazuka News 616: Islamistas, eleições e como o capitalismo incendeia a AIDS
SUMÁRIO DA EDIÇÃO FRANCÊS
-Pambazuka News 269 : Mali : as falsas percepções da «esquerda anti-guerra»
TERRA E DIREITO À TERRA
-Chade: Salvando o Lago Chade
MULHERES & GÊNERO
-Angola: Video da vergonha comove Angola
DIREITOS HUMANOS
-Onde Estão Isaías Cassule e Alves Camulingue?
-Global: OIT e CPLP lançam documentário sobre Trabalho Infantil nos PALOP
ELEIÇÕES E GOVERNABILIDADE
-Guiné Bissau: Guineenses discutem prolongamento de período de transição para entre seis meses a três anos
ÁFRICA & CHINA
-Moçambique: Governo chinês faz doação para apoio às vítimas das cheias em Moçambique
CORRUPÇÃO
-Angola: Em Angola analistas minimizam suspensão da IURD
-Angola: Familiares dos activistas desmentem pronunciamentos do executivo angolano
DESENVOLVIMENTO
-Guiné Bissau: O país precisa de mais apoio da comunidade internacional, diz Ramos-Horta em Bissau
GLBT
-Global: Candidato a substituir Bento XVI defende pena de morte para gays
RACISMO E XENOFOBIA
-Brasil: Menino de 11 anos sofre racismo: “é por isso que não gosto de ser preto”
MÍDIA E LIBERDADE DE EXPRESSÃO
-Angola: Vitória para Rafael Marques e Tinta-da-China em Portugal
BEM-ESTAR SOCIAL
-Guiné-Bissau: ONG VEGB adverte Governo a assumir responsabilidades com crianças órfãs
NOTÍCIAS DA DIÁSPORA
-Brasil: Cotas 62% dos brasileiros aprovam
CONFLITOS E EMERGÊNCIAS
-Angola: IURD suspensa em Angola
-Angola: Video da vergonha comove Angola




Artigos Principais

A IURD não é exactamente 
uma igreja, é uma empresa

Celso Malavoneke

2013-02-13

http://pambazuka.org/pt/category/features/86201

Nesta longa entrevista, Celso Malavoneke afima:"Sabemos todos os dias de pronunciamentos de cidadãos que podem ser ofensivos para as igrejas tradicionais como a católica e as protestantes e não há memória fresca de processos judiciais". Até porque temos que compreender os contornos da liberdade de imprensa, por um lado, e do direito, ou do dever dos jornalistas, de informar, porque do outro lado existe o direito constitucional do público de saber. O direito à informação. O jornalista, na maior parte dos países democráticos tem o direito à denúncia. É a tal coisa da criminalização versus descriminalização da actividade da imprensa. O mais engraçado é que, por exemplo a Igreja Universal, desses cento e setenta e dois processos que interpôs contra o jornalista brasileiro, não ganhou nenhum. Os processos que a Igreja Universal ganhou no Brasil, que eu saiba, são aqueles em que o seu líder, Edir Macedo, é acusado de lavagem de dinheiro, desvio de fundos, charlatanismo… então ganham alguns processos, outros não, outros conseguem que sejam arquivados. E o que me dói é que no Brasil quem move os processos contra a Igreja Universal é o Ministério Público, o equivalente à nossa Procuradoria Geral.
Como é que se sente uma pessoa, numa sociedade laica e tolerante como a nossa, a responder em tribunal num processo interposto por uma igreja?
É uma mistura complexa de sentimentos, principalmente no meu caso. Eu tenho uma educação religiosa, por sinal dada pelo D. Alexandre Cardeal do Nascimento, desde os meus sete anos. Eu sou religioso praticante, até compositor e maestro de música sacra, portanto, tenho uma dimensão religiosa na minha vida bastante profunda. Por causa disso procuro pautar a minha vida não apenas como pessoa de bem, como um cidadão que procura ser útil à sociedade, mas também como um cidadão solidário, que procura, na sua vida, pôr em prática os ensinamentos bíblicos, ou, se preferir, os ensinamentos evangélicos. Eu me considero pessoa de bem. Já escrevi sobre isso. E o facto de as duas únicas vezes que fui a Tribunal ter sido por iniciativa do que prefiro chamar grupo religioso, porque não sei se, pelas características que se vêm se pode classificar de igreja, cria um sentimento muito difícil de descrever. Não é uma coisa agradável. Mas o mais doloroso é sabermos que estamos a defender valores do nosso país, valores da nossa cultura, que estamos a defender gente do nosso povo que sabemos que são pessoas vulneráveis e cuja vulnerabilidade está a ser explorada, e sermos condenados pelas nossas próprias instituições. De uma maneira incompreensível, que até leva uma pessoa a pensar se terá sido condenada mesmo porque foi aplicada a Lei ou porque terá havido outros elementos estranhos. Mas é o país que temos, que estamos a tentar construir e que temos de compreender nas coisas menos boas que tem para que possamos contribuir para a sua solução.

Tem conhecimento de algum outro processo em que alguma igreja tivesse levado um outro cidadão a tribunal por suposta calúnia ou difamação?
Não. O que eu sei é que a Universal é recorrente neste tipo de coisas. Pelas pesquisas que fiz, há um jornalista brasileiro que já vai no centésimo septuagésimo segundo (172º) processo. Por depoimentos e subsídios que recebo, até do próprio Brasil, esta é uma táctica que a Universal usa quando se sente particularmente atacada por um jornalista. E o curioso é que as queixas nunca são apresentadas pela Igreja Universal enquanto instituição. São pessoas da Universal que aparecem a apresentar as queixas. No meu primeiro julgamento o ‘leitmotiv’ foi uma crónica que reagia a uma actividade em que a Igreja Universal estava a distribuir camisinhas a jovens e adolescentes nas praias da Ilha de Luanda. Segundo eles, era para prevenir o SIDA. E nós dizíamos que, neste caso, para resolver um problema estávamos a criar outro, porque estávamos, directa ou indirectamente, a encorajar os jovens para a promiscuidade sexual. Até porque um adolescente não tem, ainda, maturidade, do ponto de vista mental, para compreender estas coisas. E a própria senhora que dirigia aquilo, uma tal pastora Raquel Reis, dizia: ‘o sexo é natural, não tem como dizer aos jovens para não fazerem sexo. Eles têm é que fazer sexo, mas prevenidos’. Ora, não é isso que diz a nossa cultura, não é isso que dizem os nossos valores, nem aqui, nem no Brasil. Entretanto passou, os legisladores e juristas enrolaram, enrolaram, até que acabaram por achar que eu era culpado, etc.
É a tal coisa, às vezes a gente põe-se a reflectir sobre a filosofia do direito e começa a ver o quão frágil é o nosso sistema de justiça. Logo em seguida veio o segundo processo, desta vez por causa de uma outra crónica, intitulada “As Questões Que a IURD Não Responde”, em que eu defendia a tese de que a IURD não é exactamente uma igreja, a IURD é uma empresa.

Então é uma empresa pouco tolerante com a opinião dos outros, do mercado?
Aqui estaria a fazer juízos de valor. Evito. Até por uma questão de respeito pelas várias pessoas amigas que frequentam a Universal. Eu prefiro dizer, utilizando argumentos técnicos, até porque sou publicitário, sou marketeiro, que a IURD é uma boa empresa, com todas as componentes de uma empresa, incluindo uma boa publicidade e marketing, e daí que esteja em condições de dizer que muito deste marketing é publicidade enganosa. Eu defendia isto e dizia que a Igreja Universal é uma instituição que persegue o lucro. E mais, é uma igreja que estabelece preçários sobre os milagres de Jesus Cristo. Se você quiser ter marido pague X, se você quiser escapar-se do feitiço pague Y, se você quiser ter filho pague X. Socorrendo-nos dos conhecimentos que temos da Bíblia e da história universal, até da filosofia judaico-romana, que é a base do Cristianismo, dávamos um exemplo simples, em que dizíamos que se nós somos humanos e nunca precisamos de estabelecer preços por tudo aquilo que os nossos pais fizeram por nós, então é Deus, que é considerado o Pai de infinita misericórdia, que vai cobrar para trazer o bem nas nossas vidas? Até do ponto de vista filosófico isso é uma contradição, isso não encaixa.
Obviamente, este é o nível de discussão que corre nas elites, corre no seio dos intelectuais… e podemos dizer que, até agora, os intelectuais angolanos não se interessaram muito por esta discussão, talvez por haver outras preocupações… Mas se há algo de bom onde se percam vidas, porque onde se perdem vidas não pode haver nada de bom, o que está a acontecer é que este episódio da Cidadela traz agora, à agenda de discussão da sociedade, dos intelectuais, a verdadeira natureza da Igreja Universal. Agora vamos discutir, vamos reflectir e em conjunto, em vez de ser apenas o Celso e mais uma meia dúzia de jornalistas que depois acabam sendo perseguidos, sistematicamente, por esta igreja, porque o Celso não tem dinheiro para enfrentar cinco, dez, vinte processos, e a Igreja Universal tem…

É dinheiro que lhes faça falta?
Da primeira vez solicitaram seiscentos mil dólares de indemnização, agora solicitaram quinhentos mil dólares…

A pagar aos cidadãos que interpuseram os processos, não à igreja?
Bem, a pagar aos cidadãos, mas eu imagino que pelo menos dez por cento lá irão (risos). Pedir a um cidadão …
No entanto, sabemos todos os dias de pronunciamentos de cidadãos que podem ser ofensivos para as igrejas tradicionais como a católica e as protestantes e não há memória fresca de processos judiciais
Até porque temos que compreender os contornos da liberdade de imprensa, por um lado, e do direito, ou do dever dos jornalistas, de informar, porque do outro lado existe o direito constitucional do público de saber. O direito à informação. O jornalista, na maior parte dos países democráticos tem o direito à denúncia. É a tal coisa da criminalização versus descriminalização da actividade da imprensa. O mais engraçado é que, por exemplo a Igreja Universal, desses cento e setenta e dois processos que interpôs contra o jornalista brasileiro, não ganhou nenhum. Os processos que a Igreja Universal ganhou no Brasil, que eu saiba, são aqueles em que o seu líder, Edir Macedo, é acusado de lavagem de dinheiro, desvio de fundos, charlatanismo… então ganham alguns processos, outros não, outros conseguem que sejam arquivados. E o que me dói é que no Brasil quem move os processos contra a Igreja Universal é o Ministério Público, o equivalente à nossa Procuradoria Geral. Em Angola estou lembrado que, quando fui julgado, a procuradora que lá estava, primeiro não estava nem aí, passava o tempo todo a olhar pela janela, via-se que estava aí… Depois o juiz determinou que não se tratava de um caso criminal mas sim civil, ficou claro que não havia nada de criminal aí. Ainda assim a procuradora pediu a palavra ao juiz para dizer: Eu acho que este senhor é culpado. Quer dizer que ela achava que entregar camisinhas aos nossos filhos e dizer-lhes que podem fazer sexo porque é natural desde que uses isso … ela achava que estava bem. E quando aparece um jornalista, no exercício das suas funções, a denunciar isso, a dizer que se trata de falácia, é um pretexto usado por esta denominação para extorquir dinheiro de pessoas que são psicológica e socialmente, para não dizer economicamente, vulneráveis, esta procuradora achou que o jornalista não tem razão, que o jornalista deve ser condenado… Depois acabaram por baixar a indemnização para dez milhões de kwanzas, salvo erro.

Para mim, isto toca em muitas coisas. Por um lado, toca na fragilidade do nosso sistema de justiça, e eu espero que em função do que aconteceu no último dia do ano os nossos magistrados públicos, e eu assumo isto, procurem investigar mais, procurem estudar mais este fenómeno a que o nosso colega Reginaldo Silva chamou, e muito bem, de mercado da fé, de modo a que lá onde as coisas escapem à lei fique apenas uma questão de consciência, que seja uma consciência guiada pelo estudo, pelo trabalho, pelo conhecimento e pela informação.
Quando analisamos o que a IURD tem feito neste país eu não tenho a mínima dúvida quando digo que se trata de um perigo para a segurança deste Estado.

Mas neste crescimento, para a IURD reunir os fiéis que tem, para ter acesso às licenças de construção e aos terrenos, e nós sabemos o quão difícil isto é para os cidadãos e para outras instituições angolanas, e eles conseguem com aparente facilidade, isso significa que a IURD penetrou nos vários estratos sociais e não apenas nas camadas mais vulneráveis?

Claramente. É preciso fazer uma análise sociológica dos vários grupos alvo da Universal. E eles fizeram isso muitíssimo bem, se calhar até recorreram a empresas especializadas para o fazer. Por um lado, há o grupo alvo em que estão os mais vulneráveis, os excluídos, aqueles que perderam a esperança… e aí o Executivo, a governação, a guerra, o estado do país têm a sua quota-parte de responsabilidade. Nós temos ainda um número demasiado de excluídos, que acordam, olham para a frente e sentem-se totalmente marginalizados e, pior ainda, perderam a esperança. Este grupo, que é a grande maioria, é aquele ao qual é dirigido o chamado discurso da libertação…
Mas é um grupo para o qual as outras denominações religiosas, as mais tradicionais, também não oferecem respostas…

As outras denominações religiosas também não conseguem ir ao seu encontro. Não conseguem ir ao encontro das suas necessidades e aspirações. Estas igrejas, com o seu discurso de libertação, realmente conseguem. Porque eles conseguem estabelecer uma empatia quase hipnótica com estas pessoas. Então as pessoas começam a sentir-se valorizadas. As pessoas começam a sentir-se amadas. Começam a sentir que, finalmente, uma instituição, de respeito, as valoriza, as aceitam e cria um espaço para elas. E estas pessoas vão para ali. E como é o único lugar onde encontram esta satisfação, daí já não conseguem sair. Mas eles continuam, sobretudo, psicologicamente vulneráveis… acrescenta-se que ou porque são doentes, ou porque têm quaisquer outros tipos de problemas, ou mesmo por causa da pobreza, então eles acabam por ser psicologicamente, sociologicamente, economicamente e, depois, também acabam por ser culturalmente vulneráveis. Porque entram num processo de alienação. São estes que dando o pouco que ganham, na verdade, acabam por ser aqueles que dão a maior parte do que são as receitas da IURD. Depois você tem aquilo a que chamaríamos de classe média. A nossa classe média é o quê? A nossa classe média são funcionários públicos que estão aí, eventualmente migrados de outras igrejas, alguns deles já com alguma formação e experiência religiosa nas outras confissões… estes constituem a maior parte da liderança local. Atenção, digo liderança local porque a liderança da Igreja Universal, não haja qualquer dúvida sobre isso, está nas mãos dos brasileiros. Tanto mais que, se reparar, os próprios pastores e bispos angolanos até adoptaram a pronúncia brasileira. Depois, você tem os nossos endinheirados. E com que discurso a IURD consegue captar os endinheirados? Dizendo: você pode ganhar o céu, melhor, você pode comprar o céu. Estes, seja através do uso da sua influência, em prol da igreja, seja através de doações milionárias, seja através da facilitação, pelo uso de mecanismos não acessíveis ao cidadão normal, ou à empresa normal, fazem com que esta igreja consiga ter esta penetração. Mas esta estratégia tridimensional não é usada apenas em Angola, é usada em vários outros países. Essa é a razão pela qual esta igreja tem muitos problemas nos Estados Unidos da América e no Brasil, porque são países em que as instituições são muito atentas ao tráfico de influências, à extorsão, à chantagem, à charlatanice, à publicidade enganosa. Eles acabam tendo muitos problemas nestes países, porque as instituições reguladoras funcionam. Razão pela qual aí acabam por ter menos receitas. Há estudos, que ainda tenho que comprovar, que dizem que Angola está entre os primeiros países que mais receitas dão à IURD. Isso porque aqui os mecanismos reguladores não funcionam. Aqui em Angola as instituições são facilmente maleáveis, são muito vulneráveis e, principalmente, aqui em Angola, os endinheirados, porque nós não temos ricos, são eles mesmos muito vulneráveis. Eles próprios também são psicologicamente vulneráveis, portanto, presa fácil do discurso libertador da Universal.
Vamos pegar num exemplo: repare naquele anúncio gráfico do Dia do Fim. Como profissional de publicidade, eu podia fazer aquilo a que chamamos de leitura semiótica daquilo. O significado do fogo. Primeiro, o significado da palavra “fim”, DIA DO FIM…

Não é o que se lê, propriamente?
Sabe que publicidade é insinuação… atenção, publicidade é insinuação. Na publicidade o que conta é como ela é percebida, não é como ela é emitida. A publicidade insinua. Portanto, você tem que ir à cultura, você tem que ir à cultura deste país e ir buscar o significado de DIA DO FIM, quando ainda há pouco tempo, e por acaso a deputada Genoveva Lina mencionou isso, quando ainda há pouco tempo o mundo todo estremeceu com um pseudo dia do fim do mundo no dia 21 de Dezembro, portanto, estamos a falar de pouco mais de uma semana antes.

Então foi tudo bem calculado?
Exatamente, veja você o significado do fogo… e eu sou publicitário… em qualquer cultura o fogo tem um significado especial. E nas religiões o fogo tem um significado drástico, escatológico que está ligado ao fim dos tempos, ao inferno. Então você junta estes dois conceitos … e não vou falar da conjunção das cores, porque cada cor tem o seu significado em publicidade. Significado que não é o publicitário que define, é a cultura do grupo alvo que define. Então você analisa aquilo e eu desafio quem queira dizer que não, aquela publicidade para a vigília na Cidadela dizia, tão somente, que olha, se você não vier a esta vigília todas as coisas a que nós vamos dar o fim você não verá o seu fim, que é o feitiço, a falta de emprego, que é o não sei o quê… isto é, tecnicamente, publicidade enganosa. E num país organizado, a instituição reguladora da publicidade já teria feito uma petição ao Ministério Público para que se fizesse uma investigação. Principalmente depois de ter causado um desastre daqueles de que já não ouvíamos falar desde o fim da guerra. Mas aqui o que é que estamos a fazer?

E esperava que se reagisse neste caso quando vemos na televisão todos os dias milagres em pessoas que vão com cancro, SIDA, etc. e que saem de lá curadas? Aliás nem as instituições técnicas e médicas reagem.
Exatamente. Nós temos psicólogos clínicos… e não segredo para ninguém que em psicologia há o que se chama de indução. E isso até joga a favor deles… vejamos o caso do SIDA, há uns que vão lá e são induzidos psicologicamente a pensar que venceram o SIDA. Então, enquanto vivem naquele estado de indução psicológica, o organismo, porque a natureza humana tem forças cujos contornos até hoje ninguém conseguiu definir, a pessoa está num estado de “cura”. Não se esqueça que a definição de saúde é o bem-estar físico e psicológico. Ora, se você tiver um mal-estar físico e conseguir uma extensão da sua dimensão psicológica de maneira a compensar, alcança o bem-estar e a sensação do que tecnicamente chamamos saúde. No dia em que você deixar de, por exemplo, frequentar aquela igreja, e por via disso a força da extensão psicológica diminuir, aí você volta ao estado normal que é o estado de doente. Porque, no fundo, você nunca deixou de estar doente. Mas eles dirão que não, que é porque você deixou de ir à igreja e deixou de ser abençoado. É um exemplo, apenas, até porque eu nem sou psicólogo, nós temos psicólogos aqui.

Do ponto de vista sociológico, quais são os estragos que estão a acontecer na estrutura familiar angolana com o estado de fanatismo em que um dos cônjuges normalmente entra? Quantos casos de separação já tivemos porque um dos cônjuges acabou por largar a família? Até casos de pessoas que venderam os bens e deixaram os familiares na miséria nós conhecemos. O deputado Raul Danda, no FaceBook, publicou, há pouco tempo, uma história de um jovem que começou a namorar com uma jovem que conheceu naquela igreja, uma jovem que estava neste estado de indução psicológica, era seropositiva, e ela, como se sentia bem, tinha vencido o VIH SIDA, começou a namorar com o moço, envolveram-se sexualmente, contaminou o moço, ela acabou por morrer, o moço, hoje, anda aflito nos hospitais e, ainda por cima, na igreja pediram-lhe três mil e quinhentos dólares para ir a uma “fogueira santa” para ele também vencer a doença. Isso contado por um deputado que não é um deputado qualquer, é tão-somente o líder bancada parlamentar do maior partido da Oposição. E o que é que foi feito? Isto porque temos um grupo que joga uma influência muito forte no sentido de abafar os vários escândalos que acontecem na IURD porque eles acreditam que com isso estão a comprar o seu pedaço de céu. Que isto vai apagar todas as coisas más que fizeram no passado, as que estão a fazer no presente e as que vão fazer no futuro. E como as nossas instituições são frágeis, repito, dali vem o grande poder que a IURD tem.

Portanto, quando diz que isso pode pôr em causa a própria segurança nacional isso significa o quê?
Escreva o que eu lhe digo, porque isso aconteceu até no Brasil, nós ainda vamos ter na Igreja Universal, se isso não for travado, uma força que vai determinar a política deste país. Não estou a dizer nada de novo. No Brasil já temos vereadores, deputados estaduais, deputados federais, que são bispos e que são pastores e que estão lá em representação da IURD. É verdade que a nossa organização de Estado é diferente, mas pode crer que eles vão encontrar maneiras, porque agora que eles já têm o poder económico, e até o poder cultural, daqui a pouco tudo o que é da Universal está a falar brasileiro, o que lhes falta é o poder político. E até diria que indirectamente eles já têm poder político, porque lhe posso garantir que se fosse qualquer outra igreja que não a Universal a provocar aquele desastre da Cidadela,já teria levado o seu troco.

Estaria já com as actividades suspensas?
Não…Vou dar-lhe um exemplo recente: lembra-se do caso da Igreja Maná? … O que é que a Igreja Maná fez? O seu chefe ofendeu os dirigentes angolanos e ofendeu os angolanos, dizendo: os angolanos são como os macacos, basta a gente lhes dar uma banana e eles abrem as pernas e a gente passa Eu mesmo, nos meus escritos, insurgi-me contra isso, porque é uma falta de respeito. O que é que aconteceu… em menos de um mês a Igreja Maná tinha sido fechada. E já tinha saído no Diário da República. Os próprios crentes, de um dia para o outro foram ao o templo e encontraram-no fechado.

A Maná tinha menos crentes e menos força que a Universal?
Perante a Lei… existe o princípio da igualdade perante a Lei. E nós não podemos, nem sequer do ponto de vista político, admitir que a Igreja Maná possa ser penalizada porque ofendeu os dirigentes e ofendeu moralmente o povo angolano, que ofendeu, e vamos fechar os olhos à Igreja Universal que provocou um sinistro que atingiu quase duzentas pessoas. E de uma forma deliberada, usando técnicas capciosas, incluindo a publicidade enganosa. Eu até teria simpatia pela IURD se eles tivessem tido a hombridade de, pelo menos reconhecer a responsabilidade moral do que aconteceu. Porque foram eles que convocaram aquelas pessoas para lá, eram eles que tinham a obrigação de criar as condições para que estas coisas não acontecessem. Eu ainda simpatizaria com eles se o discurso fosse: caros concidadãos – e eu não sei se o tal Francisco Dias é brasileiro ou angolano, como falam todos igual … mas parece ser brasileiro … se pelo menos o discurso dissesse – como podem imaginar, em nenhum momento a nossa intenção foi esta, nós fizemos o melhor possível mas, entretanto, isso aconteceu. Assumimos a nossa responsabilidade como entidade organizadora e vamos fazer todos os possíveis para mitigar os resultados do sucedido -. Esse discurso eu entenderia, porque também não vou tão longe ao ponto de dizer que Igreja Universal tenha tido qualquer intenção de provocar uma hecatombe daquelas.

Mas neste caso da Universal, uma igreja que promove tantos milagres e curas, além das desculpas, as pessoas ficam à espera que os pastores e bispos poupem os seus crentes do sofrimento e da dor curando-os, ou fazendo vencer as maleitas, os ferimentos. Os fiéis até responderam a um chamamento, foram com alegria e esperança…
Permita-me um aparte como cidadão apenas. Salvaguarde isso. Mas como cristão isso leva-me ao mandamento “Não evocarás o nome de Deus em vão. Porque caso o faças será amaldiçoado”. E até parece que o próprio Jesus Cristo, em nome de quem falam, fartou-se de tanta charlatanice, fartou-se de tanto abuso do seu nome, que ele próprio quis enviar um sinal para dizer meus amigos eu ando farto disso. Como cidadão sou livre de fazer esta interpretação. Mas como um cidadão responsável e como um líder de opinião que tenho o orgulho de me considerar, neste país que é nosso, o que me deixa triste, e eu senti que … a deputada Genoveva Lina falou duas vezes sobre isto e das duas vezes tocou neste aspecto: é facto que morreu gente que era o sustentáculo de famílias. E aí vê a caracterização que dei do tipo de pessoas que estão na IURD. Terá reparado que nas vítimas a idade média rondava os trinta e oito, trinta e nove anos. Das senhoras que morreram cada uma delas tinha acima de cinco filhos e um rendimento baixíssimo. Eram zungueiras, eram vendedoras. São as tais pessoas carentes, as tais pessoas que olharam para aquela publicidade e disseram então os meus problemas vão ter fim, eu vou. Não há lugar? Eu vou forçar.

Mais uma vez, eu simpatizaria com um discurso de uma Igreja Universal a dizer, e porque eles têm possibilidades para isso: bem, nós vamos assumir a educação destes miúdos. E um Estado responsável não iria permitir que fossem fazer a formação nas escolas deles, iriam para uma instituição do Estado, pagos e sustentados pela Universal. Posses para isso eles têm. Mas não. O que ouvimos é o bispo dizer: nós até estamos a assumir as nossas responsabilidades, estamos a dar a caixa, estamos a pagar o óbito. Eu considero isso uma falta de respeito à nossa inteligência. Não estou emocionado, de maneira nenhuma, mas acho uma falta de respeito às nossas inteligências. Porque há uma contradição ali, que eu espero que o inquérito que está a ser feito vá aprofundar. Se vocês não são responsáveis pelo que aconteceu, porque é que vocês se sentem na obrigação de dar a caixa e pagar as despesas do óbito? Na nossa cultura, quem faz isso ou é familiar ou é a pessoa responsável pela morte. Se eu atropelar alguém e essa pessoa morrer eu já sei que tenho de pagar a caixa e as despesas com o óbito. É assim na nossa cultura e é isso que diz a nossa praxis cultural. Então o que é que está a querer dizer-me? Você pagou uma caixa (que por acaso eram luxuosas), duzentos ou trezentos mil, talvez, deu dois ou três mil dólares para as despesas do óbito, sei lá, e você lava as mãos? E aquelas crianças, quem é que as vai sustentar? Aquelas crianças que perderam a mãe, que, como dizia muita gente, era o sustentáculo da família, … e o futuro daquelas crianças como é que fica? É ao Estado angolano que pertence salvaguardar estas coisas. E eu estou curioso agora, estou a gostar do facto de a sociedade angolana estar a agir, do meu ponto de vista, com muita maturidade… eu sinto que as pessoas estão à espera para ver o que é que vai sair deste famoso inquérito. Porque as coisas não podem ficar assim.

Há o risco de termos alguma agitação social com base religiosa, se o resultado do inquérito não satisfizer uma parte da sociedade?… se as pessoas sentirem que a IURD terá sido ilibada das suas responsabilidades?
O que prevejo é que se esta mensagem passar, não digo que haja uma revolta, ou uma convulsão, porque graças a Deus os angolanos estão fartos de confusão, e é por isso que aparecem charlatães brasileiros e portugueses e de outras nacionalidades… como sabem que o angolano, por enquanto, está disposto a sacrificar quase tudo pela paz, abusam. Não apenas no campo religioso, noutros também. Mas eu prevejo uma reacção bastante vigorosa da sociedade civil e dos intelectuais porque, de uma maneira geral, as elites intelectuais angolanas não se identificam com a Igreja Universal, antes pelo contrário. Só que, sinto, nunca houve nada que os mobilizasse para fazerem disso uma causa. Até porque as pessoas estão preocupadas com outras coisas. Eu diria que o Executivo, por um lado, mas o Legislativo também e o Judicial pior um pouco, iriam sair muito mal na fotografia. E poderia haver depois um preço político, porque apesar de a Igreja Universal ser useira e vezeira em fazer demonstrações de força, mormente a números, a Universal, nem de perto nem de longe tem o peso que diz ter. E quando se tratar de fazer as contas, do ponto de vista político, o partido ou os partidos que decidam guardar todos os seus ovos num só cesto, o da Universal, podem ter surpresas desagradáveis.

Olhando para o que se publicou no fim-de-semana, ante a tragédia da Cidadela, e por aquilo que é espectável que se venha a publicar nos próximos tempos, estamos perante a abertura de uma guerra entre a comunicação social e alguns jornalistas e a Igreja Universal em Angola?
A Universal sempre esteve em guerra com a comunicação social em Angola. Só não atacou mais porque a própria comunicação social também teve outros temas no seu agenda seting. Eu, talvez por naquela altura ter tido uma coluna livre… agora fico preso às pautas do meu órgão, como achava insólito fiz aquelas matérias, tal como os irritou o Canzala Filho com as suas matérias satíricas no Semanário Angolense. Eles abriram guerra com o Semanário Angolense. Se reparar, a IURD não põe publicidade no Semanário Angolense, e nem sei se convidou o SA para a sua conferência de imprensa dias depois da tragédia. E porque se trata de vidas humanas, de alienação religiosa e cultural e porque até o secretário-geral da FIFA mandou uma nota de condolências porque aquilo aconteceu num estádio e a Cidadela e os nossos estádios passam a ser vistos com desconfiança, por tudo isso, julgo que para a comunicação social isso não pode ficar assim. Ou, no mínimo, a verdade tem que vir ao de cima. Eu diria que se aproximam tempos de uma relação menos dócil, como disse o Reginaldo Silva, não só com a comunicação social, como, acredito eu, com o próprio Executivo, porque não estou a ver o Executivo a fechar os olhos a este incidente. Foi grave demais.
Aos órgãos da comunicação social não vai fazer falta o dinheiro da IURD, na semana anterior à tragédia a IURD anunciava quase que de quinze em quinze minutos nas rádios, televisões, esteve nos jornais…

Esse é o dilema dos órgãos de comunicação social. Eu tenho dito, e já participei em um ou dois estudos sobre a sustentabilidade da media, e tenho dito que aí o Estado falha com as suas responsabilidades, porque a comunicação social é um pilar fundamental do processo de desenvolvimento, em todas as áreas de um país e não pode ser vulnerável. É por isso que existe legislação para que o Estado subsidie, seja em termos de benefícios fiscais, ou noutros, porque não faz sentido que O PAÍS, pague pelo papel o mêsmo que uma empresa de construção, porque O PAÍS é um jornal e o papel é uma matéria-prima fundamental para o bom exercício da sua actividade e para a diminuição do preço de capa. Os nossos jornais são caríssimos. Porque os Estado não o faz, os órgãos de comunicação tornam-se vulneráveis. E a media estará susceptível aos esforços que a Igreja Universal está a fazer no sentido de abafar este caso, que se fale nisso o menos possível, apesar de ter morrido gente. Mas isso dependerá da consciência de cada grupo redactorial.

Sendo que são pessoas individuais que tomam as dores da IURD para processar quem acham que os está a difamar, pode-se esperar, dependendo, obviamente, dos resultados do inquérito, que um grupo de cidadãos vá processar a IURD por causa do que aconteceu na Cidadela?
Até pode ser, mas não deveria ser assim. Para mim deveria ser o Ministério Público a liderar o inquérito, mas acho que eles estão à espera da investigação da DNIC, que lhes deverá reportar. Entretanto, o Presidente da República criou uma Comissão de Inquérito com um despacho claro que dá quinze dias à Comissão para reportar ao Presidente da República, o que significa que há uma vertente política neste inquérito. Isso significa que o Presidente vai tomar conhecimento e poderá, ou não, tomar quaisquer medidas em relação a isso. Se houver que desencadear um processo criminal esse virá da investigação que a DNIC está a fazer.
Mas soube também que os deputados da Assembleia Nacional se estão a preparar para abordar este assunto, independentemente dos resultados das investigações e da Comissão do Executivo. Resta-nos esperar pelo pronunciamento da PGR sobre as conclusões da investigação da DNIC. Há sinais de que isto está a mexer com as estruturas do Estado…

O caso da Cidadela ou toda a actividade da IURD?
O caso da Cidadela acabou por ser a ponta do iceberg. A não ser que queiramos fazer como a avestruz, escondamos a cabeça na areia e finjamos que não passou de um incidente. A tragédia da Cidadela foi a ponta do iceberg e quanto mais mergulharmos saberemos que será difícil ver-lhe o fundo, do tanto que está inserido. Do desastre da Cidadela, e acho que se deveria ter declarado luto nacional… ou pelo menos provincial, mas acho que a Cidadela pode ter-nos mostrado que andámos distraídos este tempo todo e temos cá um problema, uma chaga que será difícil de extirpar, ou vai atingir um estado de gangrena com que será difícil lidar e que põe em causa a integridade da nossa Nação.
A Universal estará em Angola há cerca de vinte anos. Olhando para a qualidade dos seus pastores, leva-nos a pensar que o processo de formação de um pastor ou padre normalmente é moroso…
Naquela igreja não me parece. Eu vejo pessoas que entram para aquela igreja e dois anos depois já são pastores. Pessoas que antes não tinham nenhuma cultura religiosa, para não dizer estudo e são pastores. Vejo pessoas que depois de quatro, cinco anos já são bispos…

É um bom campo para ‘chico-espertos’?
É um bom campo para ‘chico-espertos’, principalmente para aqueles que têm a capacidade daquilo que nós chamamos, no português angolano, de ‘chacho’. Para conseguir angariar fundos, conseguir extorquir. Eu diria que a formação dos pastores da IURD é bastante débil. Digo isso com conhecimento de causa. Se calhar a maior parte deles tem uma formação religiosa muito inferior à minha, e eu estou muito longe de considerar que tenho quaisquer estudos religiosos por aí além. Nas igrejas tradicionais, realmente, a formação de um pastor leva entre oito a doze anos. Normalmente há uma fase de filosofia e depois a de teologia. Os pastores protestantes fazem quatro anos de filosofia e depois quatro de teologia e os padres católicos fazem dois anos de propedêutico, depois quatro anos de filosofia e depois mais quatro anos de teologia, totalizando dez. Para ser-se bispo, ou líder religioso equivalente a bispo, como o reverendo Luís Nguimbi, para não falar dos bispos metodistas, como o reverendo Belo Chipenda, tem que se ter, no mínimo, entre quinze a vinte anos de pastoreio. O mesmo na Igreja Católica, para ser bispo, não conheço ninguém, pelo menos aqui em Angola, que tenha sido bispo com menos de quinze anos como padre. Mas na Universal você vê pessoas que a gente conheceu até nos nossos tempos de partido único, eram aqueles que andavam por aí a dizer que Deus não existe, e hoje são os ditos bispos que nos querem dizer que nós é que somos os pecadores, quando antes eram os que nos punham na cadeia porque nos chamavam de idealistas.

Esta falta de formação pode ser um dos problemas e uma das razões dos excessos da Universal?
O que é preciso compreender, eu insisto nisso, é que o objectivo da Igreja Universal não é a propagação da fé, ou do Evangelho, se preferir. Não é. E eu vou continuar a bater nesta tecla e se calhar isso vai continuar a trazer-me problemas, mas eu ainda quero dormir descansado. O objectivo da Igreja Universal é o lucro! O angariamento dos fundos, dos dinheiros dos fiéis. Este é que é o seu objectivo. Portanto, os critérios, tanto de selecção como de progressão, ou promoção, se preferir, dos seus líderes, são totalmente diferentes daquilo que você está habituado a ver nas igrejas protestantes tradicionais. Até porque eles inventaram a Teologia da Prosperidade, que quer dizer que quantos mais sinais de riqueza você ostenta, mais você passa a mensagem de que você é abençoado por Deus. Mensagem esta que colide com o que o próprio Jesus dizia dos fariseus, que são os que andavam com os cabelos perfumados, os que andavam com as túnicas debruadas de ouro. Sabe como é que Jesus lhes chamou? Sepulcros caiados. Na brincadeira eu costumo dizer que foi isso que determinou a inimizade de Cristo com os fariseus. Sepulcro caiado é o quê… os sepulcros judeus eram, como ainda hoje, pintados de branco, por fora todos muito bonitos, mas por dentro têm um corpo corrupto, em decomposição. Portanto, o termo sepulcros caiados aplica-se àquelas pessoas que denotam sinais de riqueza e de santidade mas que fogem daquilo que são os valores evangélicos de base. Os valores evangélicos de base estão resumidos numa frase só: Amarás o Senhor teu Deus acima de todas as coisas e amarás o teu próximo como a ti mesmo! Foi o resumo que o próprio Cristo fez daquilo que hoje se chama de resumo do Evangelho, da mensagem que ele próprio veio trazer. Ora, como é que podes dizer que amas o teu irmão como a ti mesmo quando consegues fazer com que ele seja contaminado por doenças, consegues fazer com que ele perca os seus bens para vir trazer os dízimos e outras contribuições à igreja, quando você, agora, olha para aquela órfãos … as outras igrejas vão buscar órfãos lá longe e põem em lares, a Igreja Universal cria órfãos. Se calhar não vai ter a hombridade, nem a responsabilidade, chame-se social, evangélica, religiosa, ou cívica, de dizer: estes tornaram-se órfãos numa actividade que eu organizei e então deixa-me tomar conta deles… Você faria isso. Se você tivesse organizado alguma coisa em que um amigo seu tivesse perdido a vida você sentiria o peso de consciência, sentir-se-ia responsável e faria o que pudesse pelos miúdos. Da IURD, até agora eu não ouvi nenhuma declaração a dizer que o vão fazer. É isto que se está a querer considerar uma igreja.

*Este artigo foi origianlmente publicado em O país, http://www.opais.net/pt/opais/?det=30707&id=1647&mid=1550

**Por favor envie comentários para editor-pt@pambazuka.org ou comente on-line em http://www.pambazuka.org

***Celso Malavoneke é jornalista e docente


Diáspora-Fobia Progressiva na Guiné-Bissau

Filomeno Pina

2013-02-17

http://pambazuka.org/pt/category/features/86285

Neste longo texto, Filomeno Pina discute as relações inerentes à separação da Diáspora Guineense dum regime político vigente no País natal nos anos/70, a partir da independência do regime colonial Português. O autor irá discutir os aspectos psicológicos desse afastamento e as implicações sociais para a família guineense; atentando para uma critica a um oportunismo político.

A revolta recalcada e a separação da Diáspora Guineense dum regime político vigente no País natal nos anos/70 teve o seu início a partir da independência do regime colonial Português. Esta separação vista como fenómeno físico e psicológico de inibição e afastamento do País, teve os seus argumentos de acordo com a natureza e motivos implícitos/explícitos vivenciados por grande número de famílias guineenses, que perderam a sua estabilidade psicológica, material e social durante o período de readaptação ao regime pós-25 de Abril. Um facto social resultante da defesa do indivíduo perante a situação complexa em que se encontrava no ambiente da política que se vivia na época.

Muitos cidadãos abandonaram, por opção, o seu País para irem viver longe da Terra que os viu nascer, não resistindo às novas exigências “ideológicas”, às condições de vida impostas pelo regime novo regressado da Luta de Libertação Nacional e, sobretudo, pelo medo da mudança como fenómeno desconhecido que gera até falsas interpretações.

Note-se no entanto este aspecto paradoxal, de alguém que vai a “fugir” daquilo que gosta mais, ou seja, do seu próprio País, para sobreviver longe, com mais dignidade, não tendo que se rebaixar, ser subserviente ao poder político instalado, consentir abusos perante ameaças e represálias, por ter vivido no País com o regime colonial, estando rotulado com preconceitos xenófobos e tribalistas, por vezes, sendo vitima de baixa política, que não garantiu justiça social num sistema de regime político partidário de si altamente “blindado”, porque insensível, para a sociedade encontrada com a independência e sobretudo os Bissau-Guineense, neste regime frio e insensível às diferenças encontradas no Povo circundante, não aceitou todos, pois escolheu e separou filhos da mesma Mãe, numa altura que o Partido deveria demonstrar uma “maternidade” exemplar. Não aconteceu, os filhos rebeldes e feios, foram maltratados, presos, torturados, e ninguém ficou com dúvidas de que este “Pai”, regressado da luta, afinal vinha de certo modo perturbado emocional e politicamente, pronto para um ajuste de contas com um certo número de pessoas, era agressivo e mau. A esperança de uma mudança de comportamento morreu na praia, durante décadas, ninguém percebeu este diagnóstico, desta nossa sorte fatal de quarenta anos lutarmos apenas uns contra os outros, o que provocou um abandono progressivo do País.

Toda esta metamorfose crítica e de crises constantes, mal interpretadas pelo poder político, complicou ainda mais a pouca confiança existente no novo regime. Muita coisa era mal percebida no seio do Povo (por exemplo os fuzilamentos em que a comunidade local era obrigada a assistir), uma sociedade exposta perante um poder que manipulou e perseguiu politicamente tudo e todos, os potenciais adversários e não simpatizantes do regime de partido único na época. Um certo número desta sociedade que viu suas vidas declinar ética, social, moral e materialmente em pouco tempo, instalando-se o medo, gradualmente foi-se perdendo “confiança” política no novo regime, i. é, pouco tempo depois da independência, rotulados que estavam pelo regime, muitos partiram para sempre.

Situação relevante a anotar foi esta descriminação implantada pelo método selectivo de divisão entre os Guineenses com a conotação (revolucionário/simpatizante ou reaccionário/alienado) de bons e maus, em vez de trabalharmos todos juntos com determinação positiva para unir Guineenses, sem excepção, preferiram implantar manhas e manias políticas para dividir, com benefícios para uma minoria que conseguiu ascender despida, por vezes, de toda a afectividade de origem como pessoa, em substituição da família natural pela família “política” como prova de “amor” à ideologia do partido único. Veja-se hoje como muitos filhos da Guiné-Bissau passaram de promessas esperançadas num País novo e independente, para vítimas inocentes do mesmo regime político, ao qual juraram promessas, e pergunto porquê?

Alguns na sua grande maioria da “classe” media e média-alta guineenses, gente de bem e trabalhadora, com responsabilidades na manutenção e funcionamento do aparelho de Estado, foram levados a abandonar o barco, “fugiram” por pressões políticas tendenciosas, discriminatórias ou com ameaças por pressão psicológica, o que socialmente trouxe receio de uma convivência livre e espontânea que era habitual, fez muita gente que ama o seu País se separar dele, movida por um “divórcio” atípico (contra a vontade), induzidos à emigração forçada, para evitar o tratamento politico instalado.

Este sentimento discriminatório projectado na emigração é injusto e préconceituoso. Até hoje ainda se registam sinais de desconfiança, de parte a parte, entre Guineenses radicados no País em relação à Diáspora.

Quem reside no País não vê com bons olhos quem vive e trabalha fora, dando a ideia de se sentir “ameaçado”, existe uma preocupação velada quando o emigrante visita o seu País, em saber se é um regresso definitivo ou se é só para passar férias, o que causa um desconforto, parecendo que alguém quer ver o outro pelas costas, sendo um potencial “rival”, mais um na concorrência, talvez.

Certamente que não é generalizada, esta atitude, na sociedade Guineense, mas este ressentimento ganha notoriedade, mais nas fronteiras do campo profissional, e isto é muito mau, mau, porque estamos perante um complexo de rivalidade intelectual entre Guineenses, que afecta muito o nosso ritmo de desenvolvimento, na Guiné-Bissau, facto à vista de todos, pelo estado a que chegamos, sem uma política de reagrupamento de quadros Guineenses, o que levanta suspeitas, porque quem pode determinar esta acção politica são os que estão dentro e no poder, até hoje, nunca se mexeu nisto. Por isso há que investigar e analisar a retaguarda profissional fora do País. Afinal quem gosta disto no estado em que estamos? O Povo é que não camarada!

É bom lembrar que há uma perda gradual na quantidade de profissionais qualificados desde os anos /70 até hoje, este défice qualitativo e quantitativo registado a partir do abandono do País, por vários motivos, marcou definitivamente o atraso que se verifica hoje, portanto, estamos perante uma variável constante, derivada de condições materiais que potenciam e sublinham diferenças, pela negativa, na sociedade, que foram sublinhando este preconceito em relação ao Guineense que vive e trabalha fora do seu País, mas que é preciso mudar e todos juntos, reassumirmos uma Guinendade positiva.

Vitimas desta descriminação, transportam sequelas por reacção a este tratamento injusto e tendencioso, dado pelo regime político na altura, mantidos na linha limite que separa a Diáspora do País de origem e ainda, tratados como se fossem um zero à esquerda. Esta discriminação com efeito à distância, tem maltratado o estatuto do emigrante, até hoje, visto como um problema em vez de uma solução. Quando na realidade dos factos é, na verdade, uma solução positiva, embora secundarizada pela descriminação de que são vítimas. Há um complexo de separação irracional mantido até agora, embora hoje se verifique com menor incidência, por quem vive dentro do País. Hoje, já se respeita mais a imagem do emigrante, tanto do ponto de vista material, como social e cultural. É uma referência na sua família e não só, visto como um apoio vivo e participativo no plano da gestão e negócios da família, sobretudo em tempos de crise e na pobreza em que se encontram várias famílias, os que têm emigrantes sempre sentem as suas vidas apoiadas materialmente, como sabemos.

Há injustiças cometidas na interpretação do fenómeno da emigração, o emigrante, por vezes, não é compreendido, mas rotulado no seu próprio País por preconceitos contra a sua imagem material ou como Guineense que vive fora.

Por ironia da sorte, isto também acontece no País de emigração que o acolhe (por ex: se no estrangeiro Ele tira lugar aos nacionais de origem, no seu País natal, é porque regressou para tirar lugar ao irmão) causando sempre reacção menos boa da parte do emigrante, parecendo que o seu regresso ou chegada ao País de acolhimento está sempre carregado de suspeição. O que vem, por outro lado, confirmar a existência de um factor psicológico nesta “rejeição”, tanto no País natal como no de acolhimento, afinal todos olham com desconfiança para o emigrante, esse “contentor” de experiências humanas que nunca esquece os degraus que pisou para sair ou entrar do seu Pais ainda mais forte.

Não é fácil lidar com este fenómeno, antes pelo contrário, por isso emigrar é para os fortes, os determinados, com coragem, os que conseguem suplantar a solidão, a angústia de abdicar da família de origem, “comer o pão que o diabo amassou”, lutando para atingir os seus objectivos e colocar-se à frente, para conquistar um lugar ao sol com a sua competência, capacidade material, num País estrangeiro mas de acolhimento, para trabalhar, evoluir e prosperar com dignidade merecida, coisa que no próprio País não seria possível e, por isso saiu, é hoje emigrante com os olhos postos na Terra que deixou para trás.

Esta realidade discriminatória comportamental tem vindo a isolar a Diáspora Guineense, há décadas, do merecimento qualitativo por parte de um poder político, que nunca deu mostras objectivas de se preocupar com unir os filhos da Guiné-Bissau a partir de um pacote de medidas como projecto político, há nada neste contexto.

Senão vejamos, qualquer Presidente da Republica quando visita um País da sua relação diplomática, normalmente se reúne com a sua Comunidade na Diáspora, para se inteirar da sua situação social e de acolhimento, procurando saber se a relação institucional de cooperação entre Países neste âmbito está sendo cumprida. Pois então, no caso da Guiné-Bissau, nunca nada disso aconteceu, nunca nenhum Presidente Guineense honrou este contacto com a Diáspora, durante as centenas de visitas, ao longo de quarenta anos, e porquê perguntamos (há ou não há complexos, conflitos e descriminações entre uns e outros, não?), está até hoje sem resposta este capítulo da relação com o emigrante, desde a independência, os Camaradas Presidentes: Luís Cabral; Nino Vieira; Kumba Yála; Henrique Rosa; e, só não tenho a certeza se também, Camarada Presidente Malam Bacai Sanha, se alguma vez reuniu com a Diáspora Guineense nos Países que visitou, se aconteceu foi, por assim dizer, o único Chefe de Estado da República da Guiné-Bissau que o fez, como excepção à regra, com certeza. Isto faz acreditar na tese de rejeição aqui apontada, consciente ou inconscientemente, ela existe e é preciso eliminar este obstáculo na nossa sociedade.

Ainda por cima, por parte de um País que tem toda a necessidade de reunir a “prata” da Casa, não o conseguiu e nem conseguirá, sem primeiro acabar com este complexo de separação e descriminação dos filhos da Guiné-Bissau (dentro/fora).

Pense nisto, futuro Presidente da Guiné-Bissau, qualquer Ministério dos Negócios Estrangeiros tem trabalho “original” a fazer e de raiz, junto da Comunidade Guineense espalhada pelo mundo fora, penso. Não nos podemos dar ao luxo de menosprezar, ser mesquinhos, com a prata da Casa que se encontra espalhada pelo mundo. Primeiro de tudo, devemos colocar as pessoas (Guineenses) em primeiro plano, criando condições materiais com políticas objectivas para animizar situações de dificuldades de compreensão e entendimento nesta matéria, é tempo de ganharmos estatuto com a experiencia do emigrante, que detém um vasto conhecimento científico e tecnológico da sua experiência, sabedoria política e cultural, que transporta e detém como ferramenta de uso na emigração e, filtrarmos o que nos interessa. Não podemos perder mais tempo, hoje mais do que nunca, o País precisa de todos sem excepção. Precisamos de uma política clara, objectiva e aberta ao diálogo neste campo e noutros igualmente necessários, sem demagogias e outros complexos políticos desnecessários, é preciso olhar para todos os filhos da Guiné-Bissau com o mesmo OLHO, até prova em contrário.

Nostalgia e solidão fazem parte da memória avulsa centrada na Terra, recheada de crimes de sangue, abusos cometidos com total impunidade, quando se trata de “camaradas” do Partido como agressor, normalmente escapam à justiça, há dois pesos e duas medidas, mas também temos boas recordações, como a felicidade vivida com amor que ficou da Terra deixada para trás, que nunca esquece o emigrante. Esta separação angustiada da Diáspora, é uma realidade que se foi tornando cada vez mais complexa, exigente do ponto de vista sentimental, e difícil de resolver, perante dificuldade de adaptação sentimental do emigrante. Há outro obstáculo, o poder político e militar desde a independência, situações que exigiam especial sensibilidade humana, uma tolerância e engajamento gradual sem ferir a filosofia de base social Guineense, supostamente alicerçada na unidade nacional, unidade do Povo e suas aspirações de progresso e bem-estar social, que deixou de existir, com muita pena, mas, se o homem pode por que não mudar o que está mal? Pergunto.

Há falta de tranquilidade social e de políticas objectivas para segurança dos cidadãos, é preciso identificar factos e factores que têm causado divergência entre guineenses (fora/dentro) e resolvê-los, para que possamos todos viver juntos numa Guinendade positiva.

É velho e careca o que vou repetir, refiro políticos do núcleo duro do regime do PAIGC na época, eles não conseguiram navegar nestas águas turvas do pós-independência, na falta de ferramentas do reconhecimento social delicado, interpretaram menos bem alguns fenómenos sociais exigentes, para adaptação/readaptação perante mudanças que se impunham em quase tudo na época e, dos dois lados (Povo libertado e os libertadores) logo após a independência nacional. Contudo, qualquer independência trouxe sempre problemas, a nossa não foi excepção, mas é tempo de não continuarmos a chorar pelo leite derramado, avançarmos sem pestanejar, pois o Guineense é forte e corajoso, a história deste Povo o confirma, só haverá vitórias no futuro, acredito!

GUINEENSES; UNI-VOS!

Infelizmente, como resposta, constatamos que muita coisa correu mal e assistimos a derrotas internas entre políticos e militares sem o desejarmos, deu-se o nascimento de fantasmas, medos, perseguições e mortes (prisões, torturas e fuzilamentos) de figuras da sociedade civil, líderes da elite na comunidade. Pois não foi fácil para muitas famílias, que viram, no entanto, na emigração a única alternativa condigna para uma vida com Paz social, uma vida digna, mas noutra parte do mundo, que não a sua terra natal, abandonando o próprio país e deixando para trás o resto da família, Deus assim quis, “onde te sentires bem, é lá a tua terra” e assim tem sido na história da humanidade.

Com a independência, deu-se então o início da debandada progressiva de quadros técnicos Guineenses, que por arrastamento se alastrou às suas famílias, à medida que reuniam condições materiais, no País de acolhimento.

O País foi ficando sem uma quantidade significativa de “peças” fundamentais para reactivação e funcionamento normal do aparelho de Estado (tanto em qualidade como em quantidade), exigida para o desenvolvimento em curso no País. Esta realidade prejudicou muito o início do arranque da independência e continuou até hoje, sobretudo porque aqueles que asseguravam a máquina abandonaram, a substituição não se verificou por falta de pessoal qualificado, no exercício profissional.

Verificamos aqui com clareza esta evidência dos factos citados atrás, razão pela qual a doença do subdesenvolvimento vitimou o nosso País, a ponto do aparelho de Estado entrar em coma profundo, i. é, perante a fuga de quadros de modo progressivo, contudo, também não adiantou nada no sentido de mudança de rumo nas políticas, os líderes trataram “friamente” e com total desprezo esta situação real, em vez de criarem condições políticas de vinculação socioprofissional, menosprezaram quem saiu e continuou tudo na mesma, como se não fosse de extrema importância estudar a situação, na altura devida, analisar e adequar novas medidas e políticas de reequilíbrio/equilíbrio da gestão do pessoal administrativo, no sentido de travar uma morte-lenta na administração do Estado, afectando toda a sua dinâmica de desenvolvimento global do País.

Parece até que ninguém viu nada disto ainda, se ouviu ou falou-se parece mentira, mas nunca de um modo oficial viu-se na preocupação do Estado, percebemos então alguma leitura da elite política sobre este assunto óbvio e desgastante, se pensam não dizem ou não fazem nada para mudar as mentalidades, nesta matéria.

Tudo isto é realidade de factos passados no terreno, que conjugados, fundamentam a importância negativa deste afastamento compulsivo de Guineenses do País, em busca de vida e de felicidade possível pelas razões atrás citadas.

Razões essas, mais materiais do que políticas ou baseadas numa reacção a eventual comportamento militar negativo, na sociedade civil. Fazendo crer que, não obstante a derivação da má gestão politica deste regime político “jovem”, inexperiente em matéria governativa e institucional do aparelho de Estado, tudo junto, fez estagnar o País décadas mais tarde (um caldo entornado neste momento), encalhados na corrupção e políticas a nivelar por baixo, estamos todos metidos nisto, portanto, é salvar o único barco, Guineenses.

Penso que de facto o nosso grande problema na estagnação do País é ADMINISTRATIVO, é urgente uma reforma administrativa reparadora do aparelho de Estado da República da Guiné-Bissau, penso ainda que seja de facto o único método capaz de devolver uma relação de cultura institucional normalizada, devolver tranquilidade na relação de trabalho entre funcionários públicos e privados, para o País avançar.

Num período de seis anos, a partir de 1975/76, houve emigração significativa do pessoal técnico qualificado, que fez com que o País começasse a “mancar”, como já foi referido, adaptado a um ritmo mais lento, mas andando, embora com dificuldades, sobretudo nas áreas do funcionalismo público e tecnológico, na saúde e na educação, por falta de pessoal técnico com experiência no ramo, assistimos impotentes sem reconhecer este facto evidente, fingimos como se nada fosse e não podemos continuar, fingindo.

Só muito tarde se apercebeu desta proliferação e desgaste lento nesta matéria, invadindo o núcleo do Estado, na falta de competência técnica. Poucas possibilidades de manutenção do motor, dificuldade crucial, e cada vez mais difícil manter o Estado na rota acertada com os projectos do País, até que os “bons” se tornam escassos e, uma vez sem “ovos”, difícil é servir omeletas. Daí que, qualquer coisa como imitação é logo uma referência, muitos postos de elevada importância para o Estado foram geridos com pouco conhecimento, sobretudo na especialidade.

Sabemos bem que quando tiramos muitas vezes uma cópia a partir de fotocópias, com o desgaste natural deste “estímulo”, chegamos ao ponto de sacar uma folha em branco como cópia, é o exemplo disto, o impasse do nosso País no que concerne o seu projecto de desenvolvimento. Vemos um motor “parado” que anda e pára ciclicamente, até que apresenta um diagnóstico de debilidade, por ausência de estímulo positivo, uma inoperacionalidade resultante da desunião entre a “prata” da Casa a que chegamos, como coisas nossas, marcando passo com políticas a nivelar por baixo, só.

Difícil é recuperar este tempo perdido, mas é POSSÍVEL projectarmos para sair desta crise, voltar a rever os “originais” modelos de desenvolvimento sem complexos, enaltecendo tudo de bom que se fez até aqui, nestes quarenta anos de independência, tirarmos elações numa profunda reflexão, com a maturidade de quem apreendeu com os erros cometidos e está disposto a evitá-los, com consciência adquirida a partir de factos estudados e analisados.

O primeiro regime político de partido único penalizou forte e feio todo País, lidando mal com o convívio das ideias diferentes, na época, descriminou grupos com ideias diferentes das ideologias inspiradas na política de esquerda (Marxismos). Cedo conotaram como reaccionários aqueles que mais faziam lembrar os “tugas”, por dificuldades de adaptação à situação nova. Como também, e não tardou, viram nos Guineenses radicados fora do País, uma ameaça social e política para o normal funcionamento da sociedade Guineense.

Contra a Diáspora cultivaram (PAIGC) sentimentos de rejeição a partir deste conflito que trouxe desconfiança, retaliação, inveja deslocada e subjacentemente assumida na postura de Estado, pela agressividade gratuita explícita constatada no seu modo de actuação, com pouco fundamento racional e objectivo, que apenas baseado na crença política partidária ou “ideologia” do partido, o quero posso e mando vigorou como ”lei” sem obstáculos.

A “farda” de militância no PAIGC trouxe imediatamente o primeiro ciclo de oportunistas que manifestaram a sua simpatia pelo PAIGC, com muita dose de “graxa”, para serem aceites. Um ambiente que serviu para cimentar o carácter ou a falta dele, sobretudo na nossa juventude nos anos /70. Altura em que começaram a considerar também o emigrante dos anos/70, um potencial reaccionário e perigoso, na medida em que mais tarde traria de fora para dentro do País, os maus hábitos da ideologia imperialista, habituados que estariam no Ocidente Europeu e outros, a outras “liberdades” pouco recomendadas para a época que se vivia na Guiné-Bissau.

Este preconceito foi determinante, do ponto de vista selectivo (saber quem é quem) para se restabelecerem regras de aproximação/afastamento, registou com maior evidência e acentuação um poder insólito desta elite política governamental do PAIGC, que ao mesmo tempo, provocou profundas roturas na sociedade, descriminações e injustiças, levadas a cabo na comunidade pelos Senhores do poder instituído, que normalmente impunes, continuavam, perante a crítica social.

Com forte influência no aparelho administrativo em todo o território nacional, sentimos desde a independência da Republica da Guiné-Bissau até hoje, e ainda existe, embora muito menos nos últimos anos, esta praga chamada “desconfiança” nos que vêm de fora para dentro do País, o emigrante.

Uma descriminação “forçada” que persiste em não valorizar o EMIGRANTE Guineense, uma desconfiança e receio que predomina dentro do País, mas que no entanto aceitando o seu dinheiro, entrar na Terra, nas participações comerciais e empresariais. Aproveito lembrar que até hoje O EMIGRANTE NÃO VOTA nas eleições, não participa na escolha dos líderes eleitos no seu País.

Talvez uma ameaça para alguns bem instalados da “classe” média alta ou mais acima…, os que têm condição material que permite um nível de vida de excelente qualidade material sem limitações, para muitos destes, talvez alguns, querem esta fatia significativa de irmão emigrante a permanecer ausente, até no “papel” (voto).

O grande Povo vai tendo um familiar fora, alguns vão podendo manter uma janela aberta para o exterior, na esperança de verem chegar algo de que precisam, como produtos de primeira necessidade, medicamentos, mesadas/dinheiro vivo, etc.

O emigrante, no seu estatuto natural de autêntico bombeiro voluntário, salva vidas da família carenciada radicada no País natal, porque estando fora, é sempre aquele que mais pode, material e financeiramente, um pouco mais, uma esperança de muitos Guineenses, cansados e carenciados, dentro do território nacional, que vão vendo uma luz no fundo do túnel, contornando a lei da vida. Ele ajuda a manter pequenos negócios, para subsistência de milhares de famílias. Temos como exemplo as empresas rodoviárias (Táxis, Toca-toca e outros transportes de passageiros, etc.), criadas a partir de negócio de emigrantes e não só, e com sucesso no País.

É preciso acabar com certos e determinados complexos em relação aos emigrantes Guineenses no seu próprio País. Reconhecer a sua importância (material, financeira, técnica e cientifica) na sociedade Guineense no seu todo.

Unir os Guineenses sem excepção, em torno das suas capacidades intelectuais, culturais, sociais e políticas, espalhadas no mundo, avançar rumo ao progresso definitivo.

Este conflito deficitário teve a sua raiz fundamental como “veneno”, criando fantasma do medo inter-pessoal gerado, que por consequência, perverteu a cultura administrativa vigente na época, e herdada do regime colonial que tecnicamente foi mergulhando numa imparável inércia.

Na base de medo pessoal do confronto de ideias, de competências, da disputa material, intelectual, competências técnicas especializadas e outros, fomos promovendo uma cultura de receio do alargamento de condições de liberdades na sociedade. Cultivou-se a ideia de que os mais inteligentes são os que concordam connosco (o que é falso), logo se sou um líder, os meus amigos serão os mais parecidos com o “poder” institucional que represento, neste caso, na época, seriam os simpatizantes/militantes do PAIGC partido único, que progressivamente veio a instalar o caos em que o País se encontra, porque se confundiu militância com meritocracia nas escolhas e preferências para ocupação de cargos públicos (isto é apenas como um dos motivos, há mais).

Os lugares de chefia na sua totalidade passaram a ser determinantes, o estatuto de confiança política, isto, como é óbvio, descriminou muita gente por excesso de zelo, na determinação do grau de aproximação/afastamento do Partido. Bons quadros, gente competente, tecnocratas, funcionários com muita cultura administrativa, pessoas necessárias como peças fundamentais do aparelho de Estado, foram deixadas ao abandono, ao sol e à chuva, por “chefes” que não estavam preparados para a condução de um carro automático. Uma das razões porque hoje somos forçados a andar de “carro” com menor competência mecânica, sem capacidades para competir numa pista de auto-estrada de desenvolvimento sustentado que a Guiné-Bissau se propõe.

Situação triste é esta que conhecemos e já bateu no fundo, a Guiné-Bissau, que só deitados a um nível abaixo do chão e levantados de seguida, com o País no peito, com uma energia para além das nossas forças, é que podemos retomar com vantagem o tempo perdido, com motivação renovada, recuperar rapidamente as peças necessárias e arrancar com tudo o que de bem e do bom se fez até hoje no território nacional.

Com coragem, fronte erguida e rosto sereno, enfrentarmos unidos, as novas batalhas, sem perder tempo com vinganças, ajustes de contas, corrupção passiva/activa, injustiças oportunistas, cobranças difíceis ou crimes selectivos. Pensarmos positivamente na recuperação de estados de espírito das pessoas desmotivadas, para juntos e unidos acreditarmos como Guineenses capazes de unir tudo e todos, num enorme cordão do tamanho da Guiné-Bissau e avançarmos rumo a bom porto, resgatando as conquistas da Luta de Libertação Nacional, este legado de diamante em estado bruto ainda, e lapidar a partir de melhores projectos para servir o Povo. Sem vender no entanto a Mãe, trabalharmos o corpo com a delicadeza de um filho que ama o que é seu e de todos nós, a Mãe-Terra.

O sistema administrativo no futuro (hoje já vem tarde) exige uma reforma urgente e altamente selectiva no aparelho administrativo do Estado. Porque ao contrário do que se pensa, o problema principal da Guiné-Bissau, não são os militares ou os políticos, como os únicos a dar que falar. A meu ver é mais um problema disfuncional actuante através do modo de interacção institucional deficiente que temos no País, por influência negativa da corrupção que afectou o Estado e grande parte do seu aparelho administrativo, trata-se de um défice Administrativo e Democrático no País.

Posto isto, é de realçar que estamos perante um espaço focal da doença, onde reside o “cancro”, que ainda é tratável, penso e digo isto com convicção e fé, nada mais.

Uma das terapêuticas assenta na promoção da meritocracia na sociedade Guineense como prioridade, um modelo de selecção técnico e profissional, reconhecido como motor actualizado nas sociedades modernas e progressistas, onde a igualdade de direito entre os cidadãos não pode ser descorada, beliscada, por complexos nenhuns (de compadrio, cunhas e o recurso a mover influência de apelidos sonantes, etc.), devendo ser logo “destruídos”, para evitarmos novos focos da mesma doença, prolongar-se o atraso e a discriminação do homem pelo homem, na Guiné-Bissau.

Muitos sectores e instituições vão ter que fazer o mesmo, urgentemente, reformar, reassumir novos estados de desenvolvimento para não estagnar ou regredir. Não há que ter medo da mudança, ninguém morrerá por isso, ninguém vai ser abandonado em “combate”, como também ninguém com menos agilidade e competência na actualidade, podemos permitir “envelhecer” num lugar isolado, sentado à frente de um”volante”de um carro que conduz mal, por falta de actualização da sua capacidade de condução, nisto temos de mudar e todos concordamos.

Ninguém uma vez substituído vai ser abandonado na “estrada” do desenvolvimento, nunca, continuará dentro, junto com o novo motorista e no mesmo carro (sociedade), merecendo ser transportado sem vexames, descriminações ou outras formas de abuso de direito.

Damos o mérito a quem fez o que pôde e da maneira como bem sabia fazer, sem poupar esforços.

Dizia um poeta anónimo “os velhos sabem e não podem, os novos podem mas não sabem”, Eu aqui, proponho cruzarmos experiências de conhecimentos, para juntos continuarmos este longo caminho sem isolar os nossos “pais” dos “filhos” de forma descriminada, reunidos num mundo para “idosos” ou para os menos capazes e um outro, para o ditos “normais”, nunca faremos semelhante descriminação, penso, seremos capazes de cuidar dos nossos mais velhos com sempre nos ensinaram, acreditamos por isso apostamos na mudança e ponto final parágrafo.

Este respeito a que nos referimos não significa reconciliar por reconciliar e com o que está mal (o efeito paz podre), não é adoptarmos posturas hipócritas ou de bajulação perante o poder político, não é fingirmos não-ver ou ser “engraxadores”, também não é perdoar o imperdoável, não é consentir o retrocesso perante uma possibilidade contrária de evoluirmos positivamente, não é temos vergonha ou medo de dizer a verdade, doa a quem doer, não é branquear aspectos negativos da nossa cultura, não é ser ladrão em terra de cegos, não é ser bandido e defensor da corrupção no País, não é ser “polícia” política vivendo às custas da mentira e de esquemas da máfia instalada no poder, não é prestando mau serviço ao Povo, mas sim o inverso, é de facto, um assumir consciente do papel do cidadão na sociedade Guineense, como bom filho da Terra, prontos para o servir sem equivoco no exercício da cidadania, servir o Estado como pessoa de bem e nada mais, servir, só.

Aqui o respeito ou acto de respeitar, são o que vai permitir descobrir o melhor para nós (Povo), para o benefício de todos nós, respeitando as leis, a relação democrática e as instituições do Estado, sublinhar a liberdade de expressão e responsabilidade social do cidadão, tudo isto, como forma de melhorarmos a nossa conduta pessoal enquanto Guineenses e servidores do Estado, preservar pela imagem do País, dentro e fora do seu território nacional.

Posto isto, tenho a dizer e para terminar, que somos todos Guineenses, não vale a pena escolher onde não se deve, não é justo que o façam por oportunismo político ou outro, acabando por lesar o País, separando uns dos outros, que certamente beneficiaria com todos os seus filhos no mesmo colo “criativo” e de desenvolvimento sustentado, que tanto desejamos.

Aqui vos deixo mais um artigo de opinião/reflexão, num assunto sério que tem sido contornado evitando pôr o “dedo na ferida”…, mesmo que não o citem com referência do seu autor, ao menos, leiam analisando ponto por ponto, o interesse é comum e nosso, há vontade Guineense em ver tudo terminar com final feliz e unidos, nesta luta pela causa que é a Guiné-Bissau.

*Este texto foi originalmente publicado em http://www.didinho.org/DIASPORAFOBIAPROGRESSIVANAGB.htm, o objetivo do autor é que os leitores difundam e discutam o tema em questão amplamente.
**Por favor envie comentários para editor-pt@pambazuka.org ou comente on-line em http://www.pambazuka.org
***Filomeno Pina é Psicólogo clínico U.C.


Meu querido Patrice - Carta a Patrice Lumumba

Ama Biney

2013-02-17

http://pambazuka.org/pt/category/features/86272

No cinquentenário de assassinato de Patrice Lumumba por forças imperialistas no Congo, Ama Biney presenteia a nós leitores com esta interessante carta a Patrice na qual ela faz uma profunda análise da situação política no Congo e por extensão a todo continente africano em sua luta por liberdade e justiça social.

Meu querido Patrice,

No 52º aniversário de seu brutal assassinato em 17 de janeiro de 1961, o seu povo, constituído por 60 milhões de pessoas, ainda não sabe o que seja paz, justice ou liberdade. O povo continua a sangrar profusamente até morrer. O estupro virou uma arma de guerra contra milhares de mulheres congolesas. Entre agosto de 1998 e abril de 2007, mais de seis milhões de congoleses morreram de atrocidades impronunciáveis, doenças, fome e subnutrição. Esta estatística é quase o número de judeus mortos no holocausto, o que nos leva a questionar: será que é porque eles são africanos de pele escura que faz com que a humanidade global responda com paralisia e indiferença? E se eles fossem europeus, teriam os assassinatos sido evitados ou diminuídos? Certamente a catástrofe sem precedentes no Congo tem proporções similares aos genocídios no Camboja e em Ruanda, a guerra no Vietnam, às guerras na Europa conhecidas como Primeira Guerra Mundial e Segunda Guerra Mundial e a guerra nos Balcãns. Se você estivesse vivo hoje em dia o que você diria para as mulheres congolesas que foram estupradas por gangs de copatriotas congoleses? Como você confortaria as crianças deixadas em orfanatos por uma multitude de senhores da guerra depravados que procuram apenas seu auto-engrandecimento e enriquecimento pessoal a partir das riquezas do Congo? O que você diria para as centenas de crianças de rua, para a juventude sem educação e desempregada que foram seduzidos pelos exércitos rebeldes a cometer crimes horríveis contra seus compatriotas congoleses? Como é possível que depois de 50 estranhos anos de uma chamada independência a expectativa de vida de uma mulher congolesa seja de 47 anos e a de um homem congolês seja de 42?

AS RIQUEZAS DO CONGO SÃO VITAIS PARA OS PADRÕES DE VIDA OCIDENTAIS

Che Guevara estava certo quando ele escreveu em seu diário de 1965 que “ O problema do Congo era uma problema mundial” [1]. Além do mais, Che também poderia ver que “A vitória no Congo teria repercussões através de todo o continente, assim como a derrota” [2]. De fato, o Congo ainda permanece como um problema mundial, quando ele continua a fornecer 64 por cento das reservas mundial de columbita-tantalita usada em telefones celulares, laptops, marca-passos, vídeo câmeras, motores, aparelhos de próteses, foguetes, aparelho auditivo, dentre muitos outros produtos[3]. A maioria destes produtos só pode ser comprada no mundo desenvolvido, ainda que a matéria prima esteja localizada no Congo. Isso reforça a realidade de que os africanos produzem o que eles ainda não consomem, e consomem aquilo que não produzem. Colocando isso diferentemente, os estilos de vida de consumo da maioria dos ocidentais são dependentes da exploração barata dos africanos e da riqueza da África, enquanto que a maioria dos africanos continua empobrecida devido às conexões estruturais desta relação. Nada mudou muito desde a era do colonialismo. No século XIX, os congoleses eram forçados pelos belgas em condições selvagens a produzir quotas de borracha, época em que mais de 10 milhões de congoleses morreram e muitos perderam seus membros por não conseguirem atingir a meta de produção. Agora a pilhagem e o saque de columbita-tantalita por grupos rebeldes no Congo, com seus apoiadores em Ruanda, Uganda, Estados Unidos e Grã Bretanha, e várias companhias multinacionais ocidentais lucram enormemente desta riqueza a expensas do povo congolês que vê muito pouco desta riqueza investida em seu país. Ao passo que os indivíduos veem a troca de celulares como um direito natural, parece que agora os diamantes de sangue convivem com a columbita-tantalita de sangue.

A OMNICIÊNCIA DE NKRUMAH

O seu colega íntimo, Kwame Nkrumah, escreveu sobre o desafio do Congo. Você e eu sabemos que muitos desses desafios continuam ainda hoje em novas e complexas permutações; o desafio de criar e sustentar um governo democrático centralizado ou federalizado no qual todos os grupos étnicos do Congo tenham voz no governo; que os fenomenais recursos econômicos do Congo primeiramente venham ao encontro das necessidades das massas congolesas ao invés de serem jogados para fora do país para atender aos interesses de estrangeiros; que os imperialistas estão totalmente conscientes do fato de que o Congo – do tamanho da Europa ocidental – faz fronteira com nove países africanos e que quem controlar o Congo, controla a África. A balcanização, a desunião e a secessão da África são tragicamente epitomizadas no Congo, o que Nkrumah enfaticamente pregou contra cautelosamente. No dia 8 de agosto de 1960 Nkrumah declarou à Assembleia Nacional de Gana: “Se permitirmos que a independência do Congo seja comprometida de alguma forma por forças imperialistas e capitalistas, nós iremos expor a soberania e independência de toda a África a um grave risco. A luta do Congo é a nossa luta. È nossa incumbência ficar do lado de nossos irmãos no Congo, totalmente conscientes de que somente a África pode lugar por seu destino” [4]. As palavras de Nkrumah ainda são relevantes hoje em dia, assim como foram em 1960. Hoje pergunta-se: porque será que não encontramos um líder africano que ecoe as palavras de Nkrumah e seu compromisso em relação ao Congo? A realidade é que falta não somente uma liderança coletiva revolucionária e de visão na África, mas uma unificação continental é difícil de visionar quando Zimbábue, Angola, Uganda, Burundi e Ruanda ainda apoiam um ou outro grupo rebelde guerrilheiro no Congo ou que o governo congolês por seu próprio interesse nacional junto com interesses estrangeiros procurou se beneficiar da exploração da enorme riqueza mineral do país. Também é igualmente difícil chegar a um objetivo comum quando uma pequena classe de burguesia consumista africana continua a existir nas mãos de seus antigos mestres coloniais e está presa na complexa armadilha de arranjos bilaterais e multilaterais que ainda mais subordinaram a África á complexa economia global neoliberal.

CONVULSIONANDO SEUS TÚMULOS?

Em 8 de agosto de 1960 você fez um acordo secreto com Nkrumah afirmando sua “determinação coletiva de trabalhar o mais próximo possível em associação com outros estados independentes da África para o estabelecimento da União dos Estados Africanos, com uma visão de liberação para toda a África do colonialismo e do imperialismo [5]. Tragicamente o acordo nunca foi implementado devido a um colapso de seu governo e de seu assassinato nas mãos de belgas e americanos.[6] Você e Nkrumah, ambos visionaram que os estados africanos independentes estabeleceriam um “ Alto comando combinado de forças militares que poriam fim rápido e a retirada de tropas estrangeiras do Congo” [7]. Bem, isso não aconteceu. Desde o fracasso do Congo, talvez você e Nkrumah estejam convulsionando em seu túmulos em cima do que está acontecendo não somente no Congo, mas em muitas partes da África onde o neo-colonialismo entrincheirou-se dentro nos poros e solo da África assim como no psiquismo dos africanos. O Alto Comando Africano de Nkrumah foi parodiado na pelo AFRICOM, COMANDO AFRICANO liderado pelos Estados Unidos da Agressão – América, estabelecido pelo antigo presidente George Bush Jr. Agora ele é liderado por Barack Obama que descente de um pai queniano e uma mãe americana e que agora rede serviço aos interesses imperialista sob a parra de AFRICOM. Embaixo de palavras-chaves tais como “segurança mútua”, “cooperação”, “pirataria na Somália”, “exercícios militar conjunto de treinamento”, a luta contra a “Guerra Mundial contra o Terrorismo”, os exércitos de uma miríade de governos africanos neo-coloniais engajaram em tais exercícios através do continente sob os auspícios do AFRICOM e também os seus antigos mestres coloniais. O AFRICOM tem um posto militar avançado – Camp Lemonier, em Djibuti, no chifre da África com mais de 2000 tropas americanas estacionadas lá.

Desde seu assassinato selvagem, novas reservas de gás e de petróleo foram encontradas em diversos países africanos o que levará apenas a mais intrigas imperialistas e neo-coloniais em África, caso a África não se uma para usar esses produtos para seus povos. Em adição a isso, o sugimento do Boko Haram na Nigéria, Al-Shabaab na Somália e a aliança de islamistas no Mali com a Al-Qaeda, no Magreb, anunciam uma futura militarização e desunião de nosso continente como pretexto para intervenção de estrangeiros beirando um presente de grego. O assassinato selvagem do Coronel Muammar Gaddafi em 20 de outubro de 2011 não foi somente um passo regressivo para uma Libia rica em petróleo, mas para todo o continente enquanto a União Africana era arrogantemente deixada de lado pela OTAN, França e Inglaterra em seu pretexto da doutrina “Responsabilidade de Proteger”, na qual a luta de líbios de pele escura e os imigrantes africanos tornaram-se alvos para tortura, detenção e mutilação sem precedentes. Esses africanos não foram protegidos pelas forças da OTAN. Tal doutrina humanitária tão ostensiva é simplesmente uma versão do século XXI daquela do século XIX chamada de o “fardo do homem branco” que concilia os motivos para a construção do império. O mal tratamento dado aos líbios de pele escura e aos imigrantes africanos na líbia mina a unidade do Pan-africanismo; é um assunto de estereótipo de unidade nacional em lugares como a Mauritânia e Sudão, onde árabes oprimem africanos.

Desde seu assassinato, o povo congolês não sofreu sozinho no mundo. Conflitos em outros lugares do continente africano, tal como Darfur, o Chifre da África, Libéria, Burundi, Serra leoa, e outros lugares; a guerra dos Bálcãs, a primeira guerra contra o Iraque, a invasão do Afeganistão em outubro de 2001 seguida pela grotesca invasão ao Iraque em março de 2003, apesar da oposição internacional às diretivas armamentistas de governos da Inglaterra e dos Estados Unidos; os abusos em Abu Ghraib; a rendição de governos da Inglaterra e Estados Unidos tudo em nome da Guerra Global contra o Terrorismo que agora suplantou a Guerra Fria de sua época; concomitantemente, centenas de detentos debilitados em campos militares dos Estados Unidos em Guantánamo em Cuba. Em resumo, muitos morreram, foram presos injustamente e torturados. Em adição a isso tudo, tem havido um vagaroso genocídio contra o povo em Gaza na ocupação israelita em terras da Palestina, ao passo que uma infraestrutura decadente está impactando negativamente na vida do povo palestino e a crise alimentar está afetando adversamente os velhos, as crianças e as mulheres grávidas.
Enquanto isso, o aniversário de seu assassinato coincide com os 53 anos de um odioso bloqueio contra a pequena ilha de Cuba, imposto em outubro de 1960. Ainda assim, em 13 de novembro de 2012, dos 193 estados membros da Assembléia Geral da ONU, 188 votaram unanimemente pelo fim do bloqueio. Três países votaram contra o fim do embargo: os EUA, Israel e a República de Palau, e ainda assim, o embargo continua valendo. Se democracia significa governar pela maioria, onde está a justiça democrática neste exemplo? Colocando de outra forma: porque os Estados Unidos podem ter relações normais de comércio com uma China “comunista” e não com uma Cuba comunista?

A AMEAÇA DE UM BOM EXEMPLO CONTINUA

Você e Nkrumah estavam profundamente conscientes do tamanho, da posição geo-estratégica e dos vastos recursos econômicos, e de que o Congo era crítico numa procura por uma unidade pan-africana. Entretanto, os imperialistas não poderiam tolerar um simples líder no mundo em desenvolvimento utilizando os recursos de seu país em interesse de seu povo. Em sua era, alguém era loco etiquetado de comunista por fazer ou mesmo pensar em fazer tal coisa. A consequência de se devotar os recursos nacionais para o desenvolvimento centrado no povo foi que líderes como você, Nkrumah, Cabral, Pierre Mulele, Sankara, Machel e muitos outros em nossa rica história tiveram de ser eliminados e muito frequentemente com a colaboração daqueles que Malcom X abertamente chamava de “negro da casa” ou os “Tio Tom” da época. A ameaça de um bom exemplo continua colocar em perigo o imperialismo, o capitalismo e o neo-liberalismo em nossos dias, porque o deles é uma ordem mundial unipolar na qual sistemas econômicos e políticos alternativos não podem ser tolerados por medo de que um bom exemplo sirva como inspiração para outros.

É por isso que Fanmi Lavalas, o partido político popular da maioria dos haitianos ainda permanece banido no Haiti; por isso que duas vezes eleito democraticamente o presidente haitiano Jean Bertrand Aristide foi atrozmente excluído e apresentado com sendo “uma cruz entre o Ayatollah e Fidel”[8] e foi exilado de sua terra natal por sete anos até março de 2012. O assalto à democracia no Haiti [9] foi orquestrado por uma elite dominante no país e seus assassinos cúmplices nos EUA, Canadá e França. Similar aos palestinos que elegeram o Hamas em janeiro de 2006, Fanmi Lavalas não deveria, aos olhos do ocidente, ter ganhado em vários níveis do governo em 1990 e 2000. Por conseguinte, as tentativas de acabar com um desejo genuinamente democrático do povo haitiano e suas organizações continuam nas famigeráveis operações de forças paramilitares, assim como a punição ao povo do Haiti por forças apoiadas por imperialistas e neo-colonialistas. Não é o povo haitiano que não está pronto para uma democracia genuína, mas a elite neo-colonial do Haiti e seus colaboradores ocidentais.

OS MESSIAS SÃO PARTE DE UM PROBLEMA?

No vórtex do conflito no Congo que capturou a região e vários outros líderes africanos com interesses ladrões, há vários falsos messias clamando a liderança do povo congolês para a terra prometida. Talvez isso seja um problema não somente no Congo, mas em toda condição pós-colonial africana: o povo é falsamente liderado a acreditar que eles precisam de um homem mágico (raramente uma mulher mágica), um messias para liberá-los de toda opressão. Nós procuramos por um messias somente para terminar numa nova forma de ditadura, culto de personalidade que engendra numa miserável e escusa patriarcal falocrática. Uma democracia que não seja genuinamente inclusiva de mulheres, juventude e todos os grupos étnicos e opiniões políticas é uma armadilha que a nossa falha em atentar para a presciência de Fanon nos custou enormemente. Similarmente uma falha em relacionar os edifícios neocoloniais e patriarcais em lugar desde que a descolonização física ocorreu, apenas serviu para levantar novos sistemas de dominação e repressão, incluindo o de gênero. Consequentemente, as diversas vozes das mulheres congolesas devem ser ouvidas, assim como seu silêncio. Elas devem estar na frente do processo de paz e reconstrução de um novo Congo, em todas as esferas da sociedade.
É chegada a hora do povo trabalhar e se organizar; definir seus interesses, necessidades e programas num princípio coletivo e abordagem oposta à fixação por líderes e indivíduos. Além do mais, a verdade é que muitos de nossos povos ainda não se emanciparam da escravidão mental e da psicose da dependência na qual existe o desejo dos forasteiros em vir e nos “salvar”. Para reiterar Nkrumah: “somente a África pode lutar por seu destino”. Somente o povo congolês pode se salvar.

UM CONGO LIVRE E ÁFRICA LIVRE

Como o Primeiro Ministro do Congo, um patriota congolês comprometido e um panafricanista, em sua curta vida você representou uma nova consciência congolesa, com a audácia para visionar um novo Congo como parte de uma África genuinamente unida e liberta. Eu te levo de volta ao seu discurso de independência de 30 de junho de 1960 quando você afirmou: “A independência do Congo marca um passo decisivo em direção à libertação de todo continente africano”, depois do qual você recebeu um aplauso maravilhoso. Você estava preparado para organizar para a unidade mas não lhe foi dada a oportunidade devido às enormes forças neo-coloniais e imperialistas. Você também falou a verdade para os poderosos e para aqueles sem poder naquele audacioso discurso em frente ao rei da Bélgica. Aos olhos do rei você era tão somente um negro esnobe. Aos olhos dos Belgas aquele discurso selou seu assassinato e desde então a cumplicidade deles em seu assassinato. Ainda assim, seu nome ainda vive no panteão revolucionário dos lutadores pela liberdade em todo o mundo, junto de Toussaint L’Ouverture, Nanny, Sojourner Truth, Haydée Santamaria, Nzinga, Nehanda, Víctor Lidio Jara Martínez, Ganga Zumba, Luisa Mahin, Che Guevara, Simón Bolivar, Frank Pais, Gasper Yanga, Paul Bogle, Hatuey, Mary Muthoni Wanjiru, e muitos outros que encherias as páginas desta carta a ti.

Alguns argumentam que já se fora a época da ideologia que envolveu a sua geração. De fato pergunto, que nobre ideologia dirige os grupos rebeldes no Congo? Não há nenhuma outra além de ganância pura, egoísmo, violência, força bruta e vingança. Nenhuma nação ou continente pode ser construído sobre valores tão desprezíveis e destrutivos.

O CONGO É VITAL PARA SALVAR O PLANETA

Talvez alguém ainda acredite que o sentimento de pan-africanismo, baseado no fato de que o que afetou um africano afetou todos os africanos e povos descendentes também tenha desaparecido. Ainda assim, eu ainda não acredito nisso. Certamente, a luta no Congo por paz, justiça economia e social deve ser mobilizada como um movimento global entre os africanos e povos de descendência africana e povos que vivem em paz e harmonia, de modo similar à repugnância moral do apartheid e dos crimes dele derivados nas vidas de negros sul-africanos na África do Sul, isso deslanchou um movimento global anti apartheid. Não podemos separar o conflito no Congo da paz mundial quando os recursos daquela terra serve de pilar para os estilos de vida do ocidente; quando poucas pessoas percebem que o Congo possui a segunda maior floresta tropical do mundo depois da floresta amazônica e é consequentemente, vital para os esforços coletivos para salvar o planeta do caminhos destrutivo da exploração capitalista. Tal como Jeannette Winterson sucintamente expressou no New York Times de 17 de setembro de 2009: “Nuclear, ecológica, química, econômica – nosso arsenal de Morte por Estupidez é impressionante para uma espécie tão inteligente como o Homo sapiens”.

Você continua a inspirar uma nova geração, pois existe congoleses que amam a paz, que são panafricanistas e internacionalistas que estão quietamente trabalhando em volta do mundo pela paz e pela justiça social para o povo do Congo. Silimarmente, em sua terra natal existe uma plethora de partidos políticos que clamam seu legado espiritual e político. Cabe ao povo decidir qual deles genuinamente representa o seu real legado.

O TRABALHO A SER FEITO

O trabalho, ainda por ser feito em termos de construir a paz, reconciliação, desenvolvimento sócio-econômico que beneficie a mulher, o pobre, os jovens, às crianças soldado, os fisicamente mutilados, os incapacitados fisicamente, os infectados por HIV/AIDS como consequência de estupro, cura da ferida mental e física dos traumas de guerra, é colossal. Integral a este trabalho deve ser a justiça retrativa e a reconexão de povos para um entendimento de uma história continental mais ampla a qual nem sempre foi banhada de sangue, como Marcus Garvey nos diz: “ Nós temos uma bela história, e devemos criar outra no futuro que irá deixar o mundo pasmado”. Você mesmo certa vez escreveu, “a história terá a sua vez, mas não será a história que é ensinada em Bruxelas – será uma história de glória e dignidade.” Nós devemos olhar pro passado, mas como outro grande pan-africanista, o falecido Tajudeen Abdul Raheem nos implorou: A vida deve ser entendida retroativamente mas vivida para o futuro.

Então Patrice, no 52º ano de seu assassinato que profundamente nos causa dor e nos leva a refletir sobre o passado e o presente do Congo e da África, eu relembro você como um ser humano e um líder político com uma visão de princípio. Seus valores, sua dedicação ao Congo e seu compromisso com a melhoria das vidas de seu povo são parte de seu legado que nós devemos perceber não somente para o Congo mas para todos os africanos e seres humanos deste nosso planeta. Tudo o que ainda resta para eu dizer é: “a luta continua”!

NOTAS FINAIS
1. Citado em The African Dream: the Diaries of the Revolutionary War in the Congo by Ernesto ‘Che’ Guevara, New York: 2000, p. 86.
2. Ibid.
3. Veja http://friendsofthecongo.org/pdf/coltan_facts.pdf
4. Citado em Revolutionary Path by K. Nkrumah, 1973, p.147-148
5. Ibid, p. 148.
6. Ibid, p. 149.
7. Ibid, p. 149.
8. Veja Damming the Flood Haiti and the Politics of Containment by P. Hallward, 2007, p. 35.
9. Veja Paramilitarism and the Assault on Democracy in Haiti by J. Sprague, 2012.

Tradução: Alyxandra Gomes Nunes

*Ama Biney é panafricanista e editora chefe do Pambazuka em língua portuguesa
**Trazido pra você com exclusividade por Pambazuka News.
***Por favor envie comentários para editor-pt@pambazuka.org ou comente on-line em http://www.pambazuka.org





Comentários e análises

Declaração da SOS Habitat em Angola sobre a situação de injustiça habitacional

SOS Habitat

2013-02-17

http://pambazuka.org/pt/category/comment/86273

O objectivo desta conferência é o de denunciar os desalojamentos forçados e demolições realizadas no bairro Mayombe, Município do Cacuaco, com a participação da Policia Nacional, Forças Armadas Angolanas e de agentes da fiscalização afectos ao município do Cacuaco Operação que foi conduzida pela Administradora Municipal do Cacuaco.

Distintos convidados, Exmos senhores representantes da comunicação social;

Minhas senhoras, meus senhores,

Em primeiro lugar, a SOS Habitat e os seus constituintes saúdam e agradecem a vossa vontade e disponibilidade à esta conferência de imprensa.

O objectivo desta conferência é o de denunciar os desalojamentos forçados e demolições realizadas no bairro Mayombe, Município do Cacuaco, com a participação da Policia Nacional, Forças Armadas Angolanas e de agentes da fiscalização afectos ao município do Cacuaco Operação que foi conduzida pela Administradora Municipal do Cacuaco.

Sem qualquer aviso prévio na madrugada do dia 1 de Fevereiro o Bairro do Maiombe foi cercado retirando toda liberdade de movimentação aos moradores que, inclusive, se viram impedidos de se abastecerem de água e e de alimentação.

Segundo informação prestada pelas vítimas, algumas aqui presentes, enquanto decorriam as demolições helicóptero afecto à Polícia Nacional com agentes prontos para desembarque num gesto de ostentação para intimidação das vítimas sobrevoaram sobre o bairro como se estivessem numa guerra.

Foram Demolidas mais de 700 casas, segundo informação obtida das vítimas e detidos 11 cidadãos. Entre eles 6 mulheres. Algumas famílias desconhecem o paradeiro dos seus parentes. Um dos detidos (nome emitido por questões de segurança) foi barbaramente espancado segundo as testemunhas presentes no local.

A SOS Habitat deslocou-se ao local no dia 5 de Fevereiro. Encontramos uma situação com muita gente desabrigada, ao relento, enquanto a Administradora orientava pessoalmente a acção.

Sentimo-nos indignados pela forma como a Sra Administradora Municipal Rosa Janota ao ser Interpelada por nós sobre as causas daquela acção. A Administradora Municipal respondeu-nos de forma arrogante e irónica dizendo: “ se a SOS Habitat trouxe casas para distribuir, estamos aqui para ajudar a fazê-lo”, “no acto das ocupações a SOS Habitat não aparece agora que o governo está a organizar é que – SOS Habitat aparece”. É como se as casas fossem alguma bagagem que SOS Habitat traz no carro, prontas para distribuir.

A SOS Habitat não distribui casas porque não tem o poder para o fazer e nem é esse o seu dever estatutário. A SOS Habitat é uma associação vocacionada para a defesa de vítimas de violações dos direitos humanos relacionados com a habitação e aposse da terra.

As vítimas desses desalojamentos forçados informaram à SOS Habitat que Agentes supostamente ligada a Administração distribuíram fichas para realojamento cobrando mil a dois mil kuanzas(usd 10 Á 20) por cada uma e que nem todos que receberam a referida ficha foram conduzidos para o local de realojamento desconhecido por elas na Caope-Funda também no Municipio do Cacuaco e que é um espaço baldio, sem condições de habitabilidade dignas e portanto inadequado para esse fim.

Esse foi o local escolhido pela Adminitradora para realojar as suas vitimas, alegando que o espaço de onde foram retirados à força é reserva fundiária do Estado, o que todos nós sabemos porque Angola no seu todo é reserva fundiária do estado.
Continuam a ser repetidos os mesmos os actos e cenários do passado protagonizado pelo GPL como exemplifica o caso das vítimas de desalojamento forçado da Ilha de Luanda. Desalojadas em 2009 pelo Governo provincial de Luanda e que até hoje se encontram a viver em condições desumanas. O tempo está a passar e o desespero continua a tomar conta dessas pessoas. Essa foi uma das acções mais insultuosa e vergonhosa realizada pelo GPL contra seres humanos na sua maioria pobres e excluídos. Também as vítimas de desalojamento forçado dos bairros Iraque e Bagadad estão desabrigados desde 2009. Registamos outros casos de desalojamento forçado realizados pelo GPL no Benfica, no Bairro Mundial, ex-moradores do Palanca, cujas vítimas também se encontram aqui nesta sala, assim como os casos da Tchavola e tchimucua na província da Huíla.

O Governo Provincial de Luanda enquanto pautar a gestão urbana pelo excesso de Burocracia administrativa, inadequada, combinada com a arrogância e a corrupção continuará a ser o maior incentivador de ocupações de terrenos pelo povo. Quando os cidadãos solícitam terrenos a administração realmente não responde a tempo e isso levam as pessoas a construir na ilegalidade.
Retenham que com esses actos, praticados por agentes da administração do Estado, protegidos por agentes da polícia e pelas forças armadas, o governo Angolano, tem colocado as vítimas desses actos de gestão fundiária abusivos em condições de vida desumanas e degradantes quando em Angola tem efeito a Convenção Internacional para os direitos culturais, económicos e sociais dos povos, além das normas constitucionais que obrigam o Governo a garantir o respeito pelos direitos humanos.

Sistematicamente o Governo Angolano com esse tipo de actos coloca-nos perante factos que constituem violação do artigo 85 da Constituição da República de Angola e da Resolução nº 37/09 de 3 de Setembro nos seus nºs 1,2,3 e 7 aprovada pela Assembleia Nacional em vigor, assim como nas convecções e Tratados internacionais sobre Direitos Humanos de que Angola é parte.
Aproveitamos nessa conferência chamar atenção ao Governo Angolano e em particular aos órgãos de Justiça e o parlamento que:

1. Não se esqueça que ao demolir habitações de cidadãos destruindo bairros suburbanos e ao desmantelar comunidades sem avaliar as consequências, o governo está a obrigar as suas vítimas - por força da necessidade de se alojarem, com todos os efeitos que daí resultam - a procurar outros lugares que depois o Governo reclama como sendo reserva fundiária do estado como temos vindo a assistir nos últimos anos.

2. Não se esqueçam que a Administração ao não responder aos requerimentos e pedidos de terrenos a tempo, conforme determina lei que vigora para os procedimentos e normas administrativas, a Administração incentiva os cidadãos á ocupação de terrenos e à construção das suas habitações na ilegalidade;

3. Não se esqueçam que vários cidadãos fizeram a entrega de requerimentos pedindo terrenos para construção de habitação à mais de 7 anos e até agora não tiveram respostas. A SOS Habitat tem provas.

4. Não se esqueçam que a burocracia e ou a falta de zelo e de interesse no atendimento dos signatários desses requerimentos para legalização da posse de terrenos e ou pedido de lotes para habitação, tem sido uma das causas principais da ocupação de espaços e da construção de habitações de forma irregular. Estamos a viver uma situação em que a administração não serve ao povo prestando-lhe os serviços que são a razão da sua existência conforme a ei determina que seja.

5. O Governo deve lembrar-se sempre que não pode nem deve destruir vidas humanas para implantar cidades de luxos e condomínios em que aqueles a quem desaloja à força e expulsa desses lugares não são acolhidos como plenas e plenos cidadãos.

6. O Governo deve lembrar-se sempre que as vitimas dessas violações dos direitos humanos são pessoas e não coisas com poderes para flutuar no espaço eternamente á espera que lhes digam onde podem aterrar e morar.

São cidadãos que, como toda a gente, todos os dias, de qualquer maneira, têm que ter um abrigo que os proteja do frio, do sol e da chuva, gente como toda a gente que carece de privacidade para a vida da sua família. São seres humanos que como os membros do Governo também têm que ter uma cama nalgum lugar para dormir todas as noites. Ou será que demolindo-lhes as casas e não lhe concedendo um lugar condigno para morar o Governo determinou que nem à mesa para comer e à cama para dormir num lugar próprio têm direito?

7. Acima de tudo chamamos atenção ao governo para a incubação de futuras revoltas que está a engendrar. Desde agora e aqui afirmamos que se o Governo continuar a desrespeitar em massa os direitos humanos relacionados com a terra, a habitação e outros, será o principal responsável do efeitos da turbulência que assim está a provocar.
8. O Governo não deve também esquecer-se que, todas e todos nós, sabemos que já enganou o povo várias vezes deixando de proceder a desalojamentos forçados em períodos pré eleitorais, pois não para com essas barbaridades por se ter tornado respeitador dos direitos humanos mas apenas para garantir votos no seu partido. É o que vem demonstrando aos angolanos e ao mundo com a prática sistemática de depois de ter tido os votos com toda a brutalidade desalojar, demolir, e expulsar mesmo a quem votou no seu partido, o MPLA e ou dele é militantes ou simpatizante.

Distintos convidados dos órgãos da comunicação social
Minhas senhoras, meus senhores,
Termino aqui o que a SOS Habitat tinha a necessidade de vos comunicar e colocamos as vítimas de desalojamento, demolição e expulsão à vossa inteira disposição para todo e qualquer esclarecimento que lhes queiram solicitar.
Muito obrigado pela vossa atenção

Luanda, 8 de Fevereiro de 2013
*Por favor envie comentários para editor-pt@pambazuka.org ou comente on-line em http://www.pambazuka.org


Aparato de Guerra Usado nas Demolições em Cacuaco

Alexandre Neto

2013-02-17

http://pambazuka.org/pt/category/comment/86274

Sete helicópteros, forças militares, policiais e de segurança, estimadas em mais de 500 efectivos, tomaram parte numa operação de demolições do bairro residencial Mayombe, no município de Cacuaco, em Luanda, a 1 de Fevereiro passado.

Sete helicópteros, forças militares, policiais e de segurança, estimadas em mais de 500 efectivos, tomaram parte numa operação de demolições do bairro residencial Mayombe, no município de Cacuaco, em Luanda, a 1 de Fevereiro passado.

De acordo com os relatos dos moradores, o dispositivo militar e policial destacado no local de madrugada surpreendeu e causou pânico às populações locais. “Por volta das 5h00 da manhã, os bulldozers começaram o seu trabalho de desalojamento de mais de 5,000 pessoas”, afirmou Mateus Virgílio Mukito, um dos moradores.

Por sua vez, Pedro Sebastião, outro desalojado, disse ao Maka Angola que duas crianças morreram no acto. “Elas fugiam dos helicópteros assustadas e acabaram por cair numa vala de drenagem”. Esta informação foi corroborada por outros moradores. Segundo o interlocutor, devido ao pânico que se instalou na comunidade, nem sequer foi possível a realização do óbito no local. “Os corpos foram resgatados por uma equipa de bombeiros e transportados para a casa-mortuária, onde os familiares foram resgatá-los e fizeram o óbito num dos bairros periféricos de Luanda”, disse Pedro Sebastião.

O morador Paulo Miranda contou ao Maka Angola que “os helicópteros voavam a poucos metros de altitude”.

As demolições prosseguiram no dia seguinte, na presença de uma força mais reduzida, que incluía dois helicópteros, 15 carrinhas policiais, oito veículos da Polícia de Intervenção Rápida e quatro viaturas das Forças Armadas Angolanas (FAA).

“Isso é terrorismo de Estado. Desalojam as pessoas, de forma desumana, porque os indivíduos que estão no poder querem vender os terrenos aos milionários e aos estrangeiros”, lamentou Mateus Virgílio Mukito, um outro morador que ficou sem tecto.

No local, o cenário é desolador. Centenas de moradores mantêm-se nos escombros do que eram as suas habitações.

Vários moradores aceitaram ser transportados em camiões basculantes, com alguns dos seus haveres, para a Kaope-Funda, numa área de valas e relevo irregular, sem qualquer tipo de construção ou infra-estruturas básicas. Nos últimos dias, as autoridades têm abandonado milhares de desalojados do bairro Mayombe nessa zona, criando uma situação de potencial desastre humanitário.

Teresa Paulina repousava nos escombros, com uma chapa a cobri-la e ao seu recém-nascido do sol. Deu à luz ali mesmo, nos escombros. Não tinha palavras para descrever a situação em que se encontrava. Pouco mais disse, para além do seu nome. Os moradores confirmaram mais dois partos ocorridos durante as demolições, sem que as autoridades tivessem manifestado qualquer compaixão ou preocupação em evacuar as parturientes ou prestar-lhes alguma assistência no local.

O responsável da ONG SOS Habitat, Rafael Morais, que se fez presente ao local, abordou a administradora municipal de Cacuaco, Rosa Janota Dias dos Santos, sobre as demolições. “Ela [administradora] respondeu de forma arrogante, tendo afirmado que ‘se a SOS Habitat trouxe casas para distribuir, então estamos [o governo] prontos a ajudar a distribui-las’. Se fosse apenas para fazer perguntas então que deixássemos o governo organizar as populações”, disse.

Maka Angola não teve sucesso na sua tentativa de abordagem das autoridades locais.

*Artigo primeiro publicado em http://makaangola.org/2013/02/05/aparato-de-guerra-usado-nas-demolicoes-em-cacuaco/
**Alexandre Neto contribuiu com Makaangola
***Por favor envie comentários para editor-pt@pambazuka.org ou comente on-line em http://www.pambazuka.org





Sumário da Edição Inglês

Pambazuka News 616: Islamistas, eleições e como o capitalismo incendeia a AIDS

2013-02-17

http://www.pambazuka.org/en/issue/current/

O ASSASSINATO TERRÍVEL DE CHOKRI BELAID
Uma bala no coração da revolução tunisina?
Mounira Chaieb
2013-02-13

http://pambazuka.org/en/category/features/86208

O assassinato selvagem de Chokri Belaid, uma das figuras mais progressivas da Tunísia, levou mais de um milhão de tunisino às ruas de Tunis e outras cidades para o seu funeral em 6 de fevereiro de 2013. O sindicato geral dos trabalhadores (UGTT) chamou uma greve, a primeira em mais de 30 anos a coincidir com o funeral. O tunisino ponderam quem será o próximo depois de tal assassinato político?





Sumário da Edição Francês

Pambazuka News 269 : Mali : as falsas percepções da «esquerda anti-guerra»

2013-02-17

http://www.pambazuka.org/fr/issue/current/

A intervenção francesa no Mali e as criticas contra Samir Amin da "esquerda anti-guerra" dos países ocidentais
Ibrahima Sène
2013-02-14

http://pambazuka.org/fr/category/features/86223

A intervenção militar da França é salutar para o Mali, a sub região e os interesses energéticos da França no Niger. Ela cresceu enormemente entre os progressistas africanos, mais isso não eleva em nada a natureza capitalista e imperialista desses países, mesmo que a chamada France Afrique tome um golpe coroado com a "Operação Serval".





Mulheres & Gênero

Angola: Video da vergonha comove Angola

2013-02-17

http://www.opais.net/pt/opais/?id=1929&det=31192

Esta semana foi postado nas redes sociais um vídeo contendo imagens de senhoras a serem barbaramente espancadas por um grupo de jovens no escritório de um estabelecimento comercialsito, segundo o comentário de alguns internautas, no bairro Cassequel, em Luanda. Os autores dão o rosto e utilizaram catanas, porretes e outros objectos para vergastar as duas senhoras que se presume tenham roubado garrafas de champanhe Moet Chandon. Os atacantes violaram os direitos das vítimas que até foram despidas e agredidas nos órgãos genitais com catanas. As duas senhoras suplicavam por perdão, mas os trogloditas não paravam. Uma das senhoras, depois de tanta agressão, foi obrigada a comer gindungo (malagueta). Os autores da “curta mas longa-metragem” de 13 minutos riam-se como se estivessem a fazer algo normal.





Direitos Humanos

Global: OIT e CPLP lançam documentário sobre Trabalho Infantil nos PALOP

2013-02-17

http://maputodigital.com/noticias.php?noticia=1000813

Organização Internacional do Trabalho (OIT) vai lançar um documentário sobre trabalho infantil nos PALOP, em parceria com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). No seguimento da «Conferência Regional Tripartida sobre Trabalho Infantil: preparação para a Conferência Global de 2013», que decorreu entre 3 e 7 de Dezembro, em São Tomé e Príncipe, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) acordaram produzir, em conjunto, um documentário que pretende difundir as questões mais problemáticas do trabalho infantil nos PALOP e que aborda, também, os esforços que têm sido realizados pela OIT, pela CPLP, pelos Governos e parceiros sociais para erradicar este problema.


Onde Estão Isaías Cassule e Alves Camulingue?

2013-02-17

http://centralangola7311.net/2013/02/06/onde-estao-isaias-cassule-e-alves-camulingue/

Não queremos continuar calados e na espera eterna enquanto os nossos amigos continuam desaparecidos! Estamos especialmente preocupados com o silêncio dos representantes do governo que em peito alto assumiram investigar e esclarecer caso no passado dia 20 de dezembro de 2012 numa reunião que mantivemos com o Ministro do Interior, o Diretor Nacional da DNIC, o Vice-Procurador Geral, o Vice-Ministro da Justiça e outras entidades do poder executivo e administrativo do país, estando presentes também familiares próximos dos nossos companheiros desaparecidos desde Maio de 2012.





Eleições e Governabilidade

Guiné Bissau: Antiga ministra da Guiné-Bissau Odete Semedo acusa Ministério Público de lhe mover processo por "perseguição pessoal"

2013-02-17

http://noticias.sapo.cv/lusa/artigo/15746279.html

A escritora e antiga ministra da Guiné-Bissau Odete Semedo acusou hoje o Ministério Público guineense de lhe mover um processo sem factos ou fundamentos credíveis e apenas por "perseguição pessoal". "O processo é considerado por mim como um ato cobarde de perseguição pessoal e completamente esvaído de factos ou fundamentos que pudessem levar um órgão de polícia criminal credível a instaurar semelhante processo", disse hoje em conferência de imprensa.


Guiné Bissau: Guineenses discutem prolongamento de período de transição para entre seis meses a três anos

2013-02-17

http://noticias.sapo.cv/lusa/artigo/15747035.html

Dirigentes políticos, militares e da sociedade civil da Guiné-Bissau debateram hoje no Parlamento o prolongamento do período de transição para mais seis meses ou três anos após o término do atual período, em maio. Num debate dirigido pelo Presidente de transição, Serifo Nhamadjo, líderes partidários, as chefias militares e representantes das organizações da sociedade civil analisaram os passos a serem encetados no país tendo em conta a impossibilidade de se organizar eleições gerais em abril próximo. Falando à imprensa no final dos debates, que duraram sete horas sem interrupção, Serifo Nhamadjo afirmou que "as partes estiveram na procura do meio-termo" sobre a prorrogação do período de transição, com uns a defenderem seis meses e outros mais três anos.


São Tomé: Governo santomense e SFI assinam acordo para facilitar comércio externo

2013-02-17

http://www.jornal.st/noticias.php?noticia=268436373

ai ser estabelecido um «guiché único» para o comércio externo. Um acordo neste sentido foi assinado entre o Governo santomense e a Sociedade Financeira Internacional (SFI). No pacote está também a conclusão do processo de instalação do sistema de informatização de dados aduaneiros, o Sydonia Gold.





Corrupção

Angola: Em Angola analistas minimizam suspensão da IURD

2013-02-17

http://tinyurl.com/bkow7ja

Governo angolano suspende atividades da Igreja Universal do Reino de Deus depois da morte de 16 pessoas durante um culto. Mas no país erguem-se vozes a pedir mais do que isso, querem a responsabilização dos culpados. Durante 60 dias a atividade da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) vai ser suspensa em Angola por ordem do governo. Também cultos de seis outras igrejas evangélicas, não legalizadas, vão ver interditas as suas práticas até conclusão contrária.Estas suspensões nascem do relatório de conclusões da Comissão de Inquérito, indigitada pelo Presidente José Eduardo dos Santos, na sequência do acidente em Luanda no passado dia 31 de Dezembro, de onde resultaram 16 vítimas mortais por asfixia e esmagamento.


Angola: Familiares dos activistas desmentem pronunciamentos do executivo angolano

2013-02-17

http://tinyurl.com/byl9l8k

Familiares dos activistas raptados em maio último desmentiram os pronunciamentos do executivo angolano que diz estarem em permanente comunicação com os parentes em relação as investigações do suposto rapto. “Decorrem as investigações a volta deste caso, como os jornalistas devem saber, os procedimentos encontram-se em segredo de justiça, mas devo informar que temos estado em contactos com as famílias destes a quem prestamos todo tipo de informações e os passos que vem sendo dados em termos de investigação e dos familiares temos também recebido o apoio total e tao breve quanto possível também tornaremos públicos os seus resultados” são os pronunciamentos do Superitendente-chefe, Aumerindo João de Almeida, chefe do Departamento Nacional de Crimes organizados da Direcção Nacional de Investigação Criminal que já mereceram a reação dos parentes dos dois activistas.





Desenvolvimento

Guiné Bissau: O país precisa de mais apoio da comunidade internacional, diz Ramos-Horta em Bissau

2013-02-17

http://www.gbissau.com/?p=4470

O representante da ONU na Guiné-Bissau, José Ramos-Horta, considera que a comunidade internacional nunca apoiou muito o país e que é preciso que “aprenda com os erros do passado” e dê maior apoio ao povo guineense. José Ramos-Horta chegou na madrugada de hoje a Bissau e encontrou-se esta manhã com o primeiro-ministro de transição, Rui de Barros, o primeiro de um ciclo de contactos com responsáveis guineenses, nomeadamente para apresentação de cumprimentos.





GLBT

Global: Candidato a substituir Bento XVI defende pena de morte para gays

2013-02-17

http://tinyurl.com/cbqvuuf

Peter Turkson, Cardeal de Gana, é um dos mais fortes candidatos e se for escolhido, se tornará o primeiro papa negro e africano da história.
Mas esse possível sucessor com grandes chances de conquistar o papado já possui um histórico polêmico. De acordo com informações do site “Queerty” ,Turkson seria homofóbico e defenderia a pena de morte para homossexuais em Uganda, um projeto de lei que tramita no Poder Legislativo do país.
Já em entrevista para o site “The Telegraph“, ele diz que é preciso ‘encontrar maneiras de lidar com os desafios da sociedade e da cultura’, acrescentando que a Igreja precisava “evangelizar”, ou converter, os que tinham abraçado “estilos de vida alternativos, tendências ou questões de gênero”. “Nós não podemos falhar em nossa missão de fornecer orientação”, disse.





Racismo e Xenofobia

Brasil: Menino de 11 anos sofre racismo: “é por isso que não gosto de ser preto”

2013-02-17

http://tinyurl.com/as7l7ms

Um menino de 11 anos teria sido vítima de preconceito racial em uma farmácia no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio. A aposentada Carmem Maria dos Santos acusa um funcionário de uma Drogaria Pacheco na Avenida das Américas de ter abordado seu neto e perguntado se ele estaria incomodando os clientes, conforme informou a Rádio CBN nesta terça-feira (5). O fato ocorreu menos de um mês após o caso de racismo em uma concessionária da BMW na Barra da Tijuca, também na Zona Oeste. Menino teria sido vítima de racismo em farmácia no Recreio dos Bandeirantes
De acordo com a aposentada, enquanto ela pagava as compras, um funcionário do estabelecimento se aproximou e colocou as mãos sobre os ombros do menino e perguntou à operadora de caixa, por duas vezes, se o garoto estava incomodando, sem saber que ele estava acompanhando a avó.


Cabo Verde: Governo de Cabo Verde cede e vai receber repatriados da União Europeia

2013-02-17

http://kapvert.com/noticias.php?noticia=5908

O Governo de Cabo Verde aceitou a condição imposta pela União Europeia (UE) para receber no seu território cidadãos de países-terceiros que tenham entrado ilegalmente no espaço europeu a partir do arquipélago. Esta cedência do Executivo cabo-verdiano foi imposta pela União Europeia para completar o Acordo de Facilitação de Vistos entre cidadãos dos dois espaços, assinado em Outubro de 2012, na Praia, entre José Manuel Durão Barroso e José Maria Neves.





Terra e direito à terra

Chade: Salvando o Lago Chade

2013-02-17

http://envolverde.com.br/ips/inter-press-service-reportagens/salvando-o-lago-chade/

Ao se aproximar da bacia do Lago Chade, tendo partido da pequena localidade camaronesa de Gulfe, a atmosfera de desespero se faz palpável. Ar poeirento, ventos ferozes e implacáveis, plantas que murcham e dunas sugerem que esta área outrora exuberante sofre uma mudança drástica. A vegetação escassa só é interrompida pela ocasional presença de árvores definhadas e algumas matas chamuscadas.





Mídia e liberdade de expressão

Angola: Vitória para Rafael Marques e Tinta-da-China em Portugal

2013-02-17

http://www.dw.de/vit%C3%B3ria-para-rafael-marques-e-tinta-da-china-em-portugal/a-16594015

"Era o desfecho que desejava" diz directora da Tinta-da-China sobre arquivamento do processo gerado pelo livro "Diamantes de Sangue". Para o jornalista Rafael Marques, decisão do MP português é "caso sem precedentes".
O anúncio do arquivamento do processo por difamação contra o jornalista e ativista angolano dos direitos humanos Rafael Marques e a editora Tinta-da-China, que publicou o livro escrito por ele, "Diamantes de Sangue", foi feito por meio de uma nota publicada na tarde de segunda-feira (11.02.2013), pela Procuradoria Geral de Lisboa.
O texto do documento afirma que o Ministério Público (MP) português concluiu, a partir dos elementos recolhidos nos autos, que a publicação do livro "Diamantes de Sangue" se enquadra no legítimo exercício de um direito fundamental e constitucionalmente protegido, nomeadamente o da liberdade de informação e de expressão, que no caso concreto se sobrepõe a outros direitos.





Bem-estar social

Angola: Angola e Moçambique lideram em políticas de proteção da criança

2013-02-17

http://www.dw.de/angola-e-mo%C3%A7ambique-lideram-em-pol%C3%ADticas-de-prote%C3%A7%C3%A3o-da-crian%C3%A7a/a-16602952

Os dois países africanos ficaram bem classificados num índice internacional de proteção da criança de uma universidade norte-americana. O estudo analisou dados de 191 países e alguns dos resultados foram inesperados. Apresentado esta quarta-feira (13.02.2013), em Londres, o estudo “Mudar as Oportunidades das Crianças” analisou pela primeira vez informação e leis que abrangem pobreza, discriminação, educação, saúde, trabalho infantil, casamento infantil e cuidados parentais.
Elaborada pelo Centro de Análise de Política Mundial da Universidade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles, a investigação revela dados surpreendentes, com algumas potências mundiais e países desenvolvidos a surgirem como maus exemplos em matéria de proteção infantil.


Global: Africanos consideram a raça como factor irrelevante na escolha do novo Papa

2013-02-17

http://tinyurl.com/aj9zqub

Entre os cardeais que deverão substituir o Papa Bento XVI estão dois proeminentes africanos, ambos originários da África Ocidental e são considerados de candidatos de peso. África é uma das regiões do mundo onde o catolicismo está em progressão, e muitas pessoas pensam ser altura para um não-europeu e possivelmente um negro assumir as rédeas da Igreja Católica. Para muitos católicos africanos a origem do Papa ou seja a sua raça é menos importante, e o que importa é somente a sua convicção em dirigir a Igreja.


Global: Diante de multidão expressiva, Bento 16 pede 'renovação'

2013-02-17

http://www.bbc.co.uk/portuguese/ultimas_noticias/2013/02/130217_papa_discurso_pai_rn.shtml

Dezenas dilhares de peregrinos se reuniram neste domingo na praça de São Pedro, em Roma, para uma das últimas aparições públicas do papa Bento 16, que deve deixar o papado no final deste mês.
Em seu discurso, diante de um público muito maior que o usual, ele afirmou que "a igreja conclama seus membros a se renovar", em uma "batalha espiritual".


Guiné-Bissau: ONG VEGB adverte Governo a assumir responsabilidades com crianças órfãs

2013-02-17

http://www.bissaudigital.com/noticias.php?noticia=2000331338

O Presidente da ONG «Visage des Enfants de la Guinée-Bissau» (VEGB), advertiu Governo de transição no sentido de assumir as suas responsabilidades para com as crianças órfãs, vítimas de naufrágios de pirogas que, nos últimos anos, têm causado muitas vítimas no país. Seco Luís está na Guiné-Bissau para participar, a 26 de Janeiro, na cerimónia de entrega de materiais didácticos às crianças órfãs que foram vítimas de naufrágio de pirogas em Janeiro de 2009, na travessia entre a região de Biombo e a Ilha de Pexice, norte do país.


Novo representante da ONU na Guiné-Bissau

2013-02-17

http://www.gbissau.com/?p=4479

Ramos-Horta chegou, na passada terça-feira à Guiné-Bissau, para liderar a UNIOGBIS, Gabinete Integrado das Nações Unidas para a Consolidação da Paz na Guiné-Bissau. Defende mais apoio da comunidade internacional. José Ramos-Horta irá atuar como representante do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, no país lusófono da África Ocidental que, em abril de 2012, foi palco de um golpe de Estado militar.





Notícias da diáspora

Brasil: Cotas 62% dos brasileiros aprovam

2013-02-17

http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/educacao/cotas-para-negros/17293-cotas-62-dos-brasileiros-aprovam

Pesquisa Ibope encomendada pelo Estadão revela que aprovação a cotas para estudantes negros é menor do que para a de alunos pobres e estudantes de escolas públicas; isso mesmo entre os próprios negros; rejeição é maior entre brancos, graduados e de classes A e B. Levantamento realizado pelo Ibope revela que 62% dos brasileiros apoiam que sejam implementadas três tipos de cotas em universidades públicas: para negros, para pobres e para alunos de escolas públicas. De acordo com a pesquisa, encomendada pelo jornal O Estado de S.Paulo, são quase dois em cada três brasileiros que defendem o benefício. Enquanto isso, 16% são contra qualquer tipo de cota. Do restante, 5% não souberam responder ou então são favoráveis a dois tipos de cotas, mas contra o terceiro. Destaca-se aqui os 12% que apoiam o mecanismo para estudantes pobres e de escolas públicas, mas são contra a implementação para negros.





Conflitos e emergências

Angola: IURD suspensa em Angola

2013-02-17

http://makaangola.org/destaque/

As autoridades angolanas suspenderam as atividades da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) por 60 dias e interditaram os cultos e demais atividades de outras seis igrejas evangélicas, não legalizadas, segundo um comunicado enviado hoje à agência Lusa.


Global: Cimeira de Chefes de Estado do Golfo da Guiné nos Camarões discute pirataria

2013-02-17

http://tinyurl.com/a79927f

Uma cimeira sobre a pirataria marítima e assaltos à mão armada no Golfo da Guiné terá lugar em abril próximo em Yaoundé, a capital camaronesa, anunciou esta quinta-feira em Brazzaville o secretário executivo da Comissão do Golfo da Guiné, o antigo Presidente de São Tomé e Príncipe, Miguel Trovoada, no termo dum encontro com o chefe do Estado congolês, Denis Sassou Nguesso. "A nossa sub-região da África Central regista enormes problemas, particularmente de pirataria marítima e assaltos à mão armada no Golfo de Guiné. Uma cimeira dos chefes de Estado está prevista para abril em Yaoundé, nos Camarões”, declarou Miguel Trovoada.


Sudão: Cordofão do Sul e Nilo Azul: Um conflito "esquecido" no Sudão do Sul

2013-02-17

http://www.dw.de/cordof%C3%A3o-do-sul-e-nilo-azul-um-conflito-esquecido-no-sud%C3%A3o-do-sul/a-16601769

Enquanto a comunidade internacional concentra a própria atenção em crises no Mali e na Síria, o conflito no Cordofão do Sul e no Nilo Azul é alvo de esquecimento. Meios de comunicação africanos falam de ataques à bomba do Exército sudanês. Os mais recentes teriam acontecido no início de fevereiro, altura em que uma escola teria sido atingida. Organizações de defesa dos direitos humanos já falam em “limpezas étnicas” desde meados de 2011 e criticam ataques dos militares sudaneses a civis na província do Cordofão do Sul, que fica na fronteira sulista do Sudão com o Sudão do Sul, país criado em julho de 2011 após referendo popular e depois de anos de disputas entre as duas regiões daquele que era o maior país do continente africano.


Líbia: Divisões e frustrações marcam a Líbia pós-revolução

2013-02-17

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/02/130217_libia_posrevolucao_pai.shtml

Recentemente formado em direito, ele é um dos que tomaram as ruas de Benghazi, na Líbia, para derrubar o regime de Muamar Khadafi, que durou quatro décadas.Congresso Nacional da Líbia elege novo primeiro-ministro Revolucionária que ajudou a derrubar Khadafi vira refugiada na Grã-Bretanha Centenas abandonam cidade na Líbia onde conflito persiste.


Mali: Guerra no Deserto

2013-02-17

http://www.africa21digital.com/politica/ver/20030803-guerra-no-deserto

Dois países africanos, a República Centro-Africana e o Mali, estiveram no centro das atenções em janeiro devido essencialmente a intervenções militares estrangeiras – africana num caso, liderada pela França no outro – contra rebeliões armadas que ameaçavam diretamente as respetivas capitais, Bangui e Bamako. Estas intervenções estão em curso, com sucessos e consequências ainda em larga medida imprevisíveis. Mas através destas duas crises é possível vislumbrar o esboço de uma nova filosofia para a gestão dos conflitos em África: a da «assistência a Estados em perigo» que foi, durante anos, eclipsada pelo controverso «dever de proteger populações civis» alegadamente ameaçadas pelos seus governantes. No Mali como na República Centro-Africana, em janeiro, os exércitos nacionais pareciam irremediavelmente derrotados e/ou desorganizados, e as capitais à beira de cair nas mãos dos «rebeldes» que podiam ocupá-las em questão de dias ou semanas. A chamada comunidade internacional achou que devia impedi-lo pela força antes de passar à segunda fase – política – de resolução do conflito, o velho dilema entre optar pelas armas ou a mesa de negociações.


Tunísia: Militantes islâmicos manifestam-se na Tunísia

2013-02-17

http://expresso.sapo.pt/militantes-islamicos-manifestam-se-na-tunisia=f787644

Centenas de ativistas apoiantes do do partido tunisino Ennahda estão hoje reunidos, em Tunis, num protesto a pedir o reforço da legitimidade governamental do seu movimento, segundo a agência AFP.Os manifestantes, muitos deles ostentam bandeiras bandeiras do partido, estão concentrados na Avenida Habib Bourguiba, centro da revolta de 2011 que derrubou o Presidente Ben Ali. "Apoiar Ennahda é um dever", é uma das frases de ordem.





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