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Em poucas semanas, a Mauritânia tem sido confrontada com diversos ataques terroristas reivindicados pela Al-quaeda no Magrebe. O islamismo radical não é novo neste país, mas o terrorismo e a violência dos atos perpetrados são inéditos. Se as correntes radicais ganham em audiência, elas não devem ser confundidas com o terrorismo que não tem ancoragem na Mauritânia. A ameaça vem, por enquanto, do exterior.

24 de dezembro de 2007, véspera de Natal. Quatro turistas franceses foram friamente assassinados na Mauritânia. A hipótese de crime fraudulento foi rapidamente trocada pela hipótese de ato terrorista. Dois dias mais tarde, três soldados mauritanos foram assassinados na base militar de Al-Ghallaouia, situada no nordeste do país. O ataque foi reivindicado pela brigada da Al-quaeda no Magrebe islâmico (BAQUMI), ex GSPC algeriano (Grupo Salafista pela Predicação e pelo Combate).

Em 5 de janeiro de 2008, os organizadores do Paris-Dakar decidiram anular a corrida mítica, preferindo seguir as diretivas do governo francês que alertava contra possíveis ameaças terroristas na Mauritânia, país no qual deveria acontecer a maior parte das provas. Na noite de 1 de fevereiro de 2008, o ‘VIP’, o maior clube noturno de Nouakchott, e a embaixada de Israel, foram tomados por alvo: seis indivíduos abriram fogo contra nesses lugares, ferindo uma francesa e dois franco-mauritanos. O ataque foi, de novo, reivindicado pelo Al-quaeda do Magrebe.

País desconhecido há poucas semanas, a Mauritânia está agora sob o fogo dos meios de comunicação: situada entre o mundo árabe e a África negra, naquela zona cinza, saaro-saheliana, que inquieta o ocidente e mais particularmente, os americanos, ela seria hoje em dia atravessada pelas correntes extremistas do Magrebe que aumentam seu campo de atuação e ganham em audiência. A mudança é brutal, porque da Mauritânia, nos lembrávamos, principalmente, de seu islã tolerante, seu povo aberto e hospitaleiro. Ainda recentemente, a ONG International Crisis Group declarou que o fundamentalismo muçulmano não tinha mais que uma base limitada na Mauritânia, e dava como explicação a esta particularidade a organização social e religiosa baseada no tribalismo e nas confrarias muçulmanas poderosas que freavam o desenvolvimento dessas idéias (ICG, 2005).

Neste artigo, nós tentaremos de fornecer algumas chaves de leitura, capazes de explicar esta inversão de situação e de sair dos atalhos com freqüência simplistas demais estabelecidos sobre o islamismo e pelo terrorismo. As análises não são de forma alguma exaustivas, na medida em que, hoje em dia, é difícil captar os limites desta questão na Mauritânia.

Nós veremos num primeiro tempo, que o poder central sempre manteve relações ambíguas com o islã em geral, e as correntes islâmicas em particular. Esta breve retrospectiva permitirá de compreender porque estes estas últimas começam a encontrar certa escuta, num contexto marcado pelas desilusões, e uma pauparização crescente, propicia ao aumento de contestações.

Nós não deixaremos de lembrar, entretanto, que o islamismo mauritano não está diretamente ligado os atos terroristas inéditos e perpetrados em nome de grupelhos estrangeiros, Al-Qaïda do Magrebe, neste caso.

Da República Islâmica da Mauritânia a ascensão do Islamismo na Mauritânia.

A denominação oficial de “República Islâmica da Mauritânia” pode causar alguma confusão, apesar de que um Estado islâmico não è outra coisa que um estado muçulmano. Mas a deriva lexical entre “islâmico" e "islamista” é rápida, o amálgama tendo sido facilitado, alias, com o exemplo da mais conhecida República Islâmica, o Irã, de Khomeiny. Esta última, de caráter revolucionário e radical, não se parece em nada com a República Islâmica da Mauritânia, a qual sempre se definiu por um Islã dito “tolerante”.

Este nome, escolhido na independência em 1960, respondia aos objetivos políticos. O primeiro presidente Mokhtar Ould Daddah queria fazer de seu país um hífen entre a África do Norte e a África negra. O Islã foi colocado em primeiro plano para ultrapassar a dupla pertença cultural e assegurar a coesão entre as populações mouras e negro-mauritanenses (Halpulaar, Soniké e Wolof) que compõem a sociedade. Ele legitima, desde então, a existência do Estado mauritano e se considera o cimento de uma nação 100% muçulmana.

Quando o coronel Haïdallah toma o poder em 1980, ele procurou reforçar o lugar do Islã e sua prática no país. Para isso, ele instaura a sharia (lei islâmica) em 1982. Maouiyya Ould Sid'Ahmed Taya, que o sucede a partir de 1984, dá continuidade a essa lógica de referência política à religião interditando, dentre outras coisas, o álcool. Contudo, no começo dos anos 1990, sob pressão exterior, Taya é constrangido a democratizar o país. Neste novo contexto, os islamistas passíveis de integrar o jogo político, inquietam o regime: em 1991, Taya tenta limitar sua audiência proibindo a constituição de partidos de caráter religioso.

De 1994 a 2005 grandes batidas policiais acontecem, regularmente seguidas de anistias. Em verdade, o regime adota uma estratégia ambígua, posto que os ameaça no lugar de lutar verdadeiramente contra eles. Taya, frequentemente, insiste sobre o fato de que não há lugar para o islamismo na Mauritânia, na medida onde todo o mundo é muçulmano. Na opinião do ICG (2005), o regime de Taya teria forjado o “perigo islamista” para demandar apoio do Ocidente e assim, desviar a atenção para a inexistência de democracia no país.

Depois do golpe de estado de 3 de agosto de 2005, a posição do governo frente aos islamitas evolui. O Comitê Militar pela Justiça e pela Democracia (CMJD) toma o poder e lança as bases da renovação democrática (ICG, 2006). Desejando romper com os métodos coercitivos do regime de Maouiyya Ould Taya que se manteve mais de de20 anos à frente do Estado, o CMJD, conduzido por Ely Ould Mohamed Vall, faz múltiplas consultas à sociedade civil e reformas democráticas. Neste clima de abertura, os islamistas são rapidamente soltos. Os membros do CMJD se engajam, por outra parte, a não se apresentar às eleições presidenciais a fim de render o poder às autoridades civis. A eleição presidencial de março de 2007 encerra a transição democrática iniciada pela juntar militar: Sidi Ould Cheikh Abdallahi foi eleito democraticamente à frente do Estado.

O novo governo se mostra também ele muito menos virulento frente aos islamistas. Em junho de 2007, um processo contra indivíduos supostos de pertencerem ás correntes islamistas, acaba por absolvê-los, por falta de provas. Ora, entre estes indivíduos absolvidos, encontrava-se Sidi Ould Sidna, um dos assassinos dos quatro turistas franceses. Esta mudança de olhar sobre o movimento islamista se observa ainda pelo reconhecimento, durante o verão de 2007, do partido Tawassoul (União Nacional para a Reforma e o Desenvolvimento), dirigido pelo deputado Mohamed Jemil Ould Mansour, líder islamista moderado. Seu partido dispõe, a partir deste momento, de uma sede em pleno coração de Nouakchott, símbolo de sua legitimidade.

Esta nova posição frente às correntes islamistas é taxada por alguns como complacente. Para outros, essa volta da “religiosidade” procurou acalmar este momento de crise. Ela se manifestou pelo retorno do final de semana muçulmano (feriado sexta e sábado); a construção de uma mesquita no palácio presidencial e inumeráveis rondas de policiais e de prisões nos bares e restaurantes de Nouakchott supostos de venderem álcool. .

Um clima de crise sócio-econômica propício à contestação

A “transição democrática” a instalação de um novo governo eleito fizeram nascer uma grande esperança de mudanças no seio da população. Esta transição foi aplaudida no exterior e erigida como um modelo a ser seguido. Ao mesmo tempo, a Mauritânia entrou no círculo fechado dos países produtores de petróleo. A exploração de um campo petrolífero off-shore em 2006, criou as condições de renovação econômica e suscitou novas aspirações. Mas, a produção petrolífera teve ser revista, no sentido de abaixar as aspirações, por causa de problemas técnicos, e o desenvolvimento econômico tão esperado, só foi aproveitado, por enquanto a uma minoria da população.

Três anos após o anúncio do petróleo e o início da transição, o entusiasmo que havia levantado às multidões cedeu lugar à decepção e à ansiedade. Por um lado, os mauritanos descobrem que a ruptura, tanto anunciada “pela transição democrática” é totalmente relativa: só precisa olhar o nome daqueles que detêm as engrenagens do Estado para descobrir que eles continuam inalterados. Por outro lado, constatam com amargura a degradação das condições de vida, quando tinham prometido para eles um enriquecimento rápido graças a este famoso maná petrolífero e uma redistribuição dos recursos com a democratização. No Outono 2007, “os motins do pão”, que estouram em várias cidades após um aumento dos preços dos bens de consumo, traíram esse desassossego. Este contexto social, marcado pela crise, explica que o povo seja ainda mais receptivo aos discursos extremistas.

Porque preconizam a moralização do Estado, estes discursos encontram uma larga escuta junto aos mais indigentes que vêem a capital Nouakchott cobrir-se de mansões, mais extravagantes uma que outras. Nunca a riqueza tinha sido ostentada de uma maneira tão visível. Muitas pessoas interrogam-se sobre a proveniência deste dinheiro. A corrupção é uma das primeiras explicações. A ajuda ao desenvolvimento, particularmente importante neste país que é considerado como um bom aluno pelos sócios capitalistas, regularmente é desviada.

O novo regime propõe-se lutar contra esta “praga” mas os resultados fazem-se esperar. O tráfico de drogas é igualmente fonte de enriquecimento rápido. O país foi recentemente apresentado como uma das plataformas das redes mafiosas. Numerosas prisões foram efetuadas nestes últimos meses, uma delas envolvendo o filho do antigo presidente Haïdallah. O povo só pode constatar a ruptura entre ele e a nova elite urbana. Os costumes ocidentais dessa elite, às vezes julgados depravados, são o alvo de vivas críticas.

A radicalização dos discursos e a forte mobilização dos habitantes são principalmente perceptíveis na cidade, lugar de debate, de expressão e de politização. Ora, a urbanização tem sido maciça nos últimos trinta anos, após grandes períodos de seca. A capital Nouakchott, criada ex-nihilo em 1957 é, com o seu milhão de habitantes, a melhor ilustração deste crescimento urbano espetacular (Choplin, 2006). Os néo-urbanos então se conectaram a outras redes e canais: a informação circula através das cadeias árabes, em especial Aljazeera, ou Internet. De fato, é na cidade que os indivíduos tomam consciência da sua marginalidade e procuram fazer entender as suas vozes (Choplin, Ciavolella, 2008).

Perante o empobrecimento crescente, alguns voltaram-se para correntes políticas profundamente críticas, mobilizando às vezes o imaginário religioso. Uma leitura wahhabite do Islã, veiculada pela influência saudita e das ONG islamistas, fez uma intrusão nos bairros desfavorecidos da cidade. O sociólogo Yahya Ould GR Bara (2003), especialista do Islã mauritano, demonstrava que o número de mesquitas tinha aumentado consideravelmente nestes últimos anos: em 2003, a cidade contava 617 mesquitas contra 17 em 1967. Ele especificava que destas 617 mesquitas, 322 eram geridas por benfeitores estrangeiros originários do Golfo Pérsico, e 17 por fundamentalistas.

Mais famosa das mesquitas chamadas fundamentalistas esta erigida num bairro pobre da capital. Uma boa parte dos fiéis que frequentam-na é de jovens haratin (os descendentes de antigos escravos), particularmente sensíveis aos discursos igualitaristas de um Islã dito puro (ICG, 2005). Estes haratin rejeitam, com efeito, o Islã mauritano das confrarias que nunca questionou as hierarquias estatutárias tradicionais opressivas. Ao contrario, as correntes fundamentalistas são um meio para denunciar a hegemonia dos chefes de tribos marabouticas que se designam como os únicos depositários do Islã.

Islamismo mauritano versus terrorismo estrangeiro

A ascençao dos discursos fundamentalistas evocada previamente não implica em que todos os Mauritanos sejam doravante simpatizantes de Ben Laden e prontos a cometer atos terroristas. Estes últimos muito têm sido condenados largamente pela população que não compartilha necessariamente os motivos dos malfeitores. O assassinato dos quatro franceses suscitou muita indignação e agitações. O ataque do VIP não ganhou a aprovação popular, apesar de esta discoteca ser freqüentada por inúmeros estrangeiros e conhecida para ser um lugar onde circulavam com toda impunidade o álcool, a droga e as prostitutas.

Quanto à embaixada do Israel, os assaltantes procuraram certamente denunciar a política do governo mauritano que, após pressões americanas, mantém relações com o Estado hebreu desde 2000. Se numerosos mauritanos (em especial, certos Mouros que reivindicam uma afiliação do país com mundo árabe) sempre se opuseram ferozmente a esta aproximação política, necessariamente eles não se contentaram com este ataque. Muitos mauritanos ficaram indignados, igualmente, com o anúncio da anulação “do Dacar”, não compreendendo como o seu país tinha podido passar de uma imagem “de país tranqüilo” à “de inimigo perigoso do Ocidente”.

Porque, temos de lembrar, o islamismo na Mauritânia, tão radical que possa ser, ele nunca serviu de base a movimentos “terroristas” como podemos observar em outros países (Kepel, 2000; Roy, 2002; Gomez-Perez, 2005). Os partidos islamistas mauritanos eles próprios recordam que nunca não convidaram o seu fiel a fazer uso da violência e que não são, de modo algum, ligados à Al-Qaïda no Magrebe. Recente numa entrevista concedida à Rádio França Internationale 8, Jemil Ould Mansour, chefe islamista moderado, condenava firmemente os atos terroristas, que ele julgava isolados e atribuía-os a grupos não-organizados. A ameaça terrorista, por conseguinte, é percebida como que vinda do exterior e sem relação com o Islã radical que se enraizou localmente. Um outro fato corrobora esta idéia: após o assassinato dos quatro Franceses, os assassinos fugiram para países vizinhos, sinal de que não existe nenhuma base terrorista na Mauritânia susceptível de protegê-los.

Assim, por conseguinte, as relações entre a ascensão do islamismo e terrorismo islamista não são implícitas na Mauritânia. Os mauritanos estão, hoje, inquietos e ainda mais angustiados porque as autoridades não parecem de modo algum dominar a situação. Recusam a idéia que possam doravante ser percebidos como terroristas e não cessam de recordar através de manifestações que condenam os ataques ou de numerosos artigos publicados nos fóruns de discussão. No entanto, temos o direito de nos perguntar se a audiência crescente das correntes radicais à escala urbana local não poderiam, com o tempo, favorecer novos atos terroristas. A fronteira entre os dois “mundos” continua, por enquanto, marcada, mas ela pode revelar-se porosa como o atesta a trajetória de alguns indivíduos que passaram das correntes islamistas mauritanas, não-violentas, aos grupelhos “djiadistes” estrangeiros.

* Armelle Choplin é mestre de conferências em geografia na Universidade Paris-Est Marne-la-Vallée. Pesquisadora associada a l'UMR PRODIG onde ela realisou sua tese, ela trabalha sobre as questões urbanas na Mauritânia e no Sudão.

* Traduzido por Alyxandra Gomes Nunes, Co-editora do Pambazuka News

* Revisado por Mariana Blanco Rincón

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* Você pode também consultar este texto no seguinte endereço: http://echogeo.revues.org/document4363.html